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Portal Boletim Jurídico - ISSN 1807-9008 - Brasil, 23 de julho de 2019

Introdução ao pensamento científico: a passagem do pensamento ingênuo ao pensamento crítico

 

Carolline Leal Ribas; Juscelino Silva

 

Resumo

Neste artigo, discute-se  a passagem do pensamento ingênuo ao pensamento crítico. Após  expressar a diferença entre ambos, passa-se à natureza do conhecimento e à sua aplicação.

Palavras-chave: pensamento ingênuo, pensamento crítico, especificidade.

Abstract

This article, we discusses ter transition from naïve to critical thinking thought. After expressing the difference between them goes up to nature of knowledge and its application.

Keywords: naïve thinking, critical thinking, specificity.

1.      Introdução

Neste artigo, discute-se a natureza do pensamento científico. Distingue-se esse tipo de conhecimento daquele que é próprio do senso comum. Para tanto, dividiu-se o artigo em duas partes: a natureza do conhecimento científico, o conhecimento científico nas ciências exatas, humanas e aplicadas e as ciências na Faculdade Batista de Minas Gerais. Três questões para começar: qual é a diferença entre o conhecimento do dia a dia e o conhecimento científico? Em que eles se aproximam e se distanciam? Qual o diferencial que este conhecimento oferece para quem o detém?

2.      Natureza do conhecimento científico

O conhecimento científico tem sua própria especificidade. Por isso, é diferente do conhecimento produzido pelo senso comum, isto é, aquele que circula na tradição da comunidade, mas cuja validação é, de modo geral, intuitiva. A especificidade do conhecimento científico abarca seis aspectos cruciais: a necessidade, a progressão, a realidade, a organização, a generalização e a sistematização.

A necessidade é o princípio do qual se afirma que todo fenômeno da natureza, preservada as condições gerais de sua origem, decorre necessariamente de leis da causa e efeito. Claro que elas não se apresentam espontaneamente à inteligência humana, é preciso descobri-las. A descoberta das leis no interior dos fenômenos permite que ele seja conhecido e utilizado. O domínio do fenômeno, quando orientado pela ética do bem comum, coopera para o bem da humanidade porque as energias dele, que funcionavam de acordo com o acaso, podem ser aplicadas inteligentemente para produzir resultados que visem ao bem comum (SCHNEIDER, 1999. p. II-4).

A progressão é o princípio do qual deriva a lei de que o conhecimento científico avança gradativamente através da contribuição global da inteligência científica. O princípio evidencia que o conhecimento científico é necessariamente relativo.  A sua relatividade decorre do limite da inteligência humana e da precariedade dos instrumentos disponíveis à investigação. Portanto, a progressão do conhecimento científico é uma necessidade inerente à condição humana (SCHNEIDER, 1999. p. II-4).

A realidade é o princípio que aponta para o objeto material e formal da pesquisa. Entende-se por objeto material a área de incidência da pesquisa e por objeto formal o elemento estudado dentro da área de incidência. Pode-se exemplificar a questão, como segue: a Teologia Sistemática tem como objeto material Deus e como objeto formal as doutrinas, por exemplo, a soteriologia. O mesmo pode-se dizer do Direito, cujo objeto material são as leis e o objeto formal dependerá do ramo do Direito em questão. Portanto, a realidade é o lugar da pesquisa porque instiga o pesquisador a indagar-se sobre a natureza dos fenômenos e o modo de abordá-lo. Este princípio ajuda a evitar que a pesquisa científica seja contaminada com especulações de ordem exclusivamente subjetivas (SCHNEIDER, 1999. p. II-4).

A organização é o quarto princípio da pesquisa científica. Planejar a pesquisa significa primeiro ter uma ideia relevante conectada a um objeto. A isto, segue a teoria, ou seja, o conjunto de leis sistematizadas e que gozam de aceitação pela comunidade científica.  Além disso, deve-se elaborar hipóteses do tipo “se isto [...] então aquilo”, ou então uma pergunta. Há quem prefere criar a hipótese através de uma afirmação provisória. A primeira fórmula de criação de hipótese parece mais adequada do que  a segunda porque a hipótese sai da situação problema. Trata-se de hipóteses praxiológicas porque a construção obedece aos estímulos oriundos da realidade e que clamam por uma solução. A hipótese que se expressa como afirmação, geralmente, impõe a perspectiva do pesquisador sobre a situação. Pode-se chama-la de noética. Este tipo de hipótese, geralmente, é mais difícil de ser abandonada e esta resistência pode impor a vontade do pesquisador sobre o objeto. Isto o levaria a descobrir o que ele quer e não o que o problema  impõe.  À hipótese, segue-se o método. Este é o caminho que se percorre para realizar a pesquisa. Portanto, o princípio da organização (ideia, objeto, teoria, hipótese e método), na medida em que visa a realização efetiva da pesquisa, é, dentre todos os princípios, o mais relevante (SCHNEIDER, 1999. p. II-4).

A generalização é o princípio pelo qual se reivindica as contribuições da pesquisa à ciência em geral. Este procedimento é feito quando o pesquisador, de posse das conclusões da pesquisa, sublinha as leis que sua pesquisa formulou. Este processo ocorre através da aplicação da lógica inferencial, isto é, diante dos dados da pesquisa realiza-se um processo mental de generalizar os resultados para situações nas quais as condições gerais da pesquisa feita sejam mantidas (SCHNEIDER, 1999. p. II-4). A expectativa é que se alcance resultados similares.

A sistematização é o princípio pelo qual os resultados da pesquisa são organizados como sistema para integrar o conhecimento produzido. Como a produção científica é contínua, o sistema é necessariamente aberto tanto em relação às pesquisas em torno de seu objeto quanto às contribuições de outras ciências (SCHNEIDER, 1999. p. II-4). 

Há pelo menos seis princípios que ajudam o estudante a reconhecer um texto científico. São eles: a necessidade, a progressão, a realidade, a organização, a generalização e a sistematização. A posse deste conhecimento é vital por pelo menos duas razões: primeira- habilita o discente a discernir o conhecimento científico do não científico. Este discernimento é crucial para se fazer a pesquisa científica com sustentação teórica de peso. Segundo- capacita o discente a produzir textos científicos observando esses princípios. Esta capacitação é vital para que o discente comece a sua jornada na academia com confiança (SCHNEIDER, 1999. p. II-4).

O conhecimento dos princípios que caracterizam a pesquisa científica deve ser completado pela identificação da especificidade da pesquisa nas ciências exatas, humanas e aplicadas. Esta distinção é feita no próximo tópico.

3.  O conhecimento científico nas ciências exatas, humanas e aplicadas

As ciências receberam muitas classificações ao longo da história da ciência.  O filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) classificou a ciência como teórica e prática. Enquanto a primeira visa à compreensão, por ex., a metafísica cujo objeto de estudo é o Ser, isto é, a realidade última que dá sentido à natureza; a segunda, a ciência prática, busca resultados específicos e mensuráveis, por ex., a biologia (SABY, 2010). A classificação aristotélica apoia-se no critério de dupla realidade: a invisível e a visível na qual a primeira causa a segunda. O limite desta classificação é a enorme abrangências das duas categorias (CLASSIFICATION DES SCIENCES, 2013).

Como o pensamento aristotélico dominou a Escolástica, desde Tomás de Aquino, pode-se saltar para o século XIX sem incomodar muito. Em 1930, Augusto Comte, no “Cours de philosophie positive” -“Curso de filosofia positiva”-  classifica as ciências como matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia. A palavra “positiva” reafirma o princípio comteano de que  científico é apenas o conhecimento que decorre daquilo que é palpável. Esta classificação é mais restritiva do que a aristotélica. Porém, deixa transparecer o preconceito de Comte com a teologia, a filosofia, a psicologia e a lógica. Estas disciplinas por não se enquadrarem no molde comteano de ciência eram vistas como conhecimento de segunda classe. Em 1967, Jean Piaget, tendo o objeto de estudo de cada ciência como critério, propôs uma classificação triádica.  1. Ciências humanas: história, psicologia, sociologia, antropologia, economia e linguística. Todas têm por objeto os comportamentos humanos. 2. Ciências da natureza: física, química e biologia, que têm como objeto de estudo a matéria e a vida. 3. As Ciências formais, que são: matemática, lógica e informática, que têm como objeto de estudo os entes abstratos (CLASSIFICATION DES SCIENCES, 2013).

A ciência contemporânea, porém, progride para além dessas fronteiras tradicionais. Isto parece exigir uma classificação das ciências que não seja mais a partir do objeto, como o fez Jean Piaget.  Elas poderiam ser classificadas de acordo com sua finalidade. A ciência a serviço da ciência é classificada como teórica e a ciência a serviço de uma técnica é chamada de aplicada. Esta classificação, desde que conserve a visão não-hierarquizada das ciências, contribui para que as ciências tenham múltiplas circulações e cooperem na construção de um mundo mais compreensivo e mais humano. Se a classificação, porém, apoia-se na capacidade de previsão através de medições específicas, então, pode-se falar de ciências “moles” e “duras”. “Moles” são aquelas cujas previsões são mais difíceis, por ex., as ciências humanas; “duras” são aquelas de  predições mais fáceis, por ex., as ciências da natureza. Todavia, em 1927, Werner Karl Heisenberg demonstrou, através do princípio da incerteza, que mesmo a natureza não obedece a um determinismo absoluto, mas somente a um determinismo provável (ROSENFELD, 2013).

Portanto, a ciência é a visada de um fenômeno para o descrever e o explicar através de critérios eficazes de validação. Os juízos de valores que aparecem nos adjetivos “exato”, “duro”, “mole”, “teórico” e “prático” ocultam que todas as ciências concorrem para o mesmo fim e a querela se elas devem ser ou não engajadas deve basear-se antes na distinção entre ciência e discurso dogmático e não entre as ciências propriamente ditas.

Os recursos teóricos deste tópico devem ser aplicados nos cursos ofertados na Faculdade Batista de Minas Gerais. A que área científica pertence o seu curso e a qual é o perfil cognitivo que cada um exige?

4.      Conclusão

O conhecimento científico é aquele produzido dentro de critérios rígidos de controle, de acordo com uma teoria específica e com um método adequado ao objeto de estudo. Você viu que as ciências são classificadas em exatas, humanas e aplicadas e que cada área tem sua própria especificidade e, por isso, exige habilidades cognitivas específicas dos discentes. O conhecimento construído sob esta moldura teórica difere do conhecimento do common sense porque enquanto este é intuitivo, aquele é sistemático.

REFERÊNCIAS

CLASSIFICATION DES SCIENCES. Université de Montreal, 2013. Disponível em: <http://www.irem.univ-montp2.fr/IMG/pdf/Classification-sciences.pdf> . Acesso em: 01/07/2013

Jacques CHEVALLIER, Danièle LOCHAK, « ADMINISTRATION - La science administrative  », Encyclopædia Universalis [en ligne], consulté le 1 juillet 2013. Disponível em : <www.universalis.fr/encyclopedie/administration-la-science-administrative/> . Acsso em : 01/07/2013

Léon ROSENFELD, « HEISENBERG WERNER KARL - (1901-1976)  », Encyclopædia Universalis [en ligne], consulté le 1 juillet 2013. Disponível em:  . Acesso em 01/07/2013.

KELSEN, Hans. Teoria pura do Direito. São Paulo : Martins Fonrtes, 1999.

SÁ, Antonio Lopes de. Teoria da Contabilidade. 2ª ed. São Paulo: Atlas, 1999.

SABY, Jérôme. Aristote (384 Av. J.C). Disponível em: <http://www.astrofiles.net/astronomie-aristote>. Acesso em: 29/06/2010

SCHNEIDER, Daniel. Balises de méthodologie pour la recherche em sciences sociales. Genéve: Faculté de Psychologie et des Sciences de l’Education, 1999.

Data da conclusão/última revisão: 3/4/2019

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Carolline Leal Ribas; Juscelino Silva

Carolline Leal Ribas :Doutoranda em Humanidades, Mestre em Estudos culturais e especialista em gestão pública e em direito público.

Juscelino Silva: Doutor em Direito Professor de Graduação em Direito da Rede Batista.

Inserido em 04/04/2019

Parte integrante da Edição no 1610

Código da publicação: 4912

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Citação deste artigo, segundo as normas da ABNT:

RIBAS, Carolline Leal; SILVA, Juscelino. Introdução ao pensamento científico: a passagem do pensamento ingênuo ao pensamento críticoBoletim Jurídico, Uberaba/MG, a. 13, no 1610. Disponível em: <https://www.boletimjuridico.com.br/ doutrina/artigo/4912/introducao-ao-pensamento-cientifico-passagem-pensamento-ingenuo-ao-pensamento-critico> Acesso em: 23  jul. 2019.

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