Imprimir | Voltar

Boletim Jurídico - O portal mais completo do país

 

FUNDADOR DA ESCOLA ELEÁTICA: o estudo da obra de Parmênides

 

Autor:Jackelline Fraga Pessanha


Texto extraído do Boletim Jurídico - ISSN 1807-9008
http://www.boletimjuridico.com.br/doutrina/artigo/2844/fundador-escola-eleatica-estudo-obra-parmenides



Jackelline Fraga Pessanha[1]

RESUMO: O presente trabalho pretende o estudo da obra de Parmênides, filósofo fundador da escola eleática. Ele nasceu na cidade de Eléia, hoje chamada Vélia, uma pequena cidade no sul da Itália. Desenvolveu a sua filosofia ancorada na unidade e na imobilidade do Ser, assim como no mundo sensível como uma mera ilusão, e, por fim, o Ser como uno, eterno, imutável.

Palavras-chave: Filosofia. Parmênides. Monista. Ser uno, eterno e imutável.

ABSTRACT: The present work aims to study the work of Parmenides Eleatic philosopher, founder of the school. He was born in the city of Elea, now called Vélia, a small town in southern Italy. Developed his philosophy anchored in unity and stillness of Being, as well as in the sensible world as an illusion, and ultimately, as one Being, eternal, immutable.

Keywords: Philosophy. Parmenides. Monistic. Be one, eternal and unchanging.

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho pretende demonstrar a vida e obra do Filósofo Parmênides, que desenvolveu sua filosofia no período pré-socrático, que designa os filósofos que vieram antes de Sócrates (470-399 a. C.).

Por isso, pretende-se estudar as teorias que envolvem a filosofia desenvolvida por Parmênides, que foi fundador da escola eleática, que sustenta: a unidade e a imobilidade do Ser; o mundo sensível como uma ilusão; o Ser sendo uno, eterno, imutável.

Parmênides nasceu na cidade de Eléia, hoje Vélia, uma pequena cidade no sul da Itália. Foi discípulo do pitagórico Amínias e mostra conhecer a doutrina pitagórica (Pitágoras). Provavelmente seguiu as lições do velho Xenófanes. Em Atenas, com Zenão, combate a filosofia dos jônicos. Floresceu entre 500 a. C. a 460 a. C. (SOUSA, 1978).

2 A FILOSOFIA DE PARMÊNIDES

Parmênides foi iniciado na vida filosófica por Ameinias (pitagórico), tendo participado ativamente da política, sendo o primeiro legislador de sua cidade, recém-fundada, bem como dotando a cidade de boas legislações.

De acordo com Giovanni Reale (1990, p. 50)

Parmênides se apresenta como inovador radical e, em certo sentido, como pensador revolucionário. Efetivamente, com ele, a cosmologia recebe como que profundo e benéfico abalo do ponto conceitual, transformando-se, pelo menos em parte, em uma ontologia - teoria do ser.

Parmênides é importante para a filosofia atual, tendo em vista que é o descobridor da identidade do ser, o descobridor da identificação entre o ser e o pensar. Os eleáticos são os primeiros a praticar a argumentação e a discussão ancorada na dialética, por meio da analise e ponderação de argumentos.

Importante salientar, que Parmênides que constituiu a metafísica baseada nas suas descobertas do princípio da identidade, sendo o descobridor da ontologia, cosmologia, entre outros estudos.

O pensamento de Parmênides, conhecido como o filosofo poeta, é conduzido pelas Filhas do Sol à sua Musa, que revela a verdade e toda a verdade. O poema mais conhecido trata sobre a natureza, se dividindo em duas partes, após o preâmbulo, a primeira parte é conhecida como a via da verdade, enquanto a segunda como a via da opinião (CHAUÍ, 2002).

Ele escreveu um poema filosófico, em versos, que falavam sobre a natureza, teve, ainda, duas obras uma que tratava sobre verdade e outra de opinião, sendo um tipo de profeta da verdade, vertendo em torno de si uma luz fria e penetrante.

O poema, embora pertença ao universo da antiga alétheia dos magos, poetas e adivinhos, fala claramente da Deusa já nada tem a ver com linguagem sagrada dos mistérios, o oposto, pois é a razão quem fala, oferecendo os argumentos compreensíveis e simples. Afirmando que o poema é pura filosofia.

Parmênides foi o mais influente dos filósofos que precederam Platão, pois entende que o pensamento humano deve atingir o conhecimento genuíno e a compreensão, tendo fundado a metafísica ocidental com sua distinção entre ser e não-ser.

Podemos concluir que Parmênides tanto afirma que o que pode ser dito e pensado deve ser (ou existir) como, inversamente, afirma que o ser é o que pode ser pensado e dito. E, por contraposição, tanto declara que o nada, porque não é (não existe), não pode ser pensado nem dito, como inversamente, que o que não pode ser pensado nem dito, não é (CHAUÍ, 2002, p. 90).

Em outras palavras, o ser é e pode ser pensado e dito, pois o ser é ele mesmo, sendo idêntico a si mesmo e será possível que o seu negativo, que é o não ser, também possa ser pensado e dito, pois a afirmação do ser depende de sua negação, a análise de seu oposto, ou seja, o nada ou não ser.

A inovação que Parmênides foi à lógica, pois para muitos intérpretes é a primeira vez que um filósofo, formula os dois princípios lógicos fundamentais de todo o pensamento, qual seja, o princípio de identidade – ser e não ser -, e o princípio de não contradição, onde o ser é o seu contrário, e o não ser não é.

Por isso, Parmênides teria sido o descobridor da lei fundamental do pensamento verdadeiro, pelo qual é impossível afirmar uma coisa sem o seu oposto, mas deve ser analisado o contrário como a vida do falso, aquela em que não se respeita a identidade.

Ademais, os intérpretes entendem que Parmênides foi o criador da ontologia, ou seja, o estudo do ser ou do pensamento do ser, através da afirmação de que

a arkhé é o ser ou o que é, o enten – to eón – e que o não ser, o não ente – me eón – não é. E convém observar a radicalidade de Parmênides: ele não considera que podemos pensar e dizer o que existe e não podemos pensar e dizer o que não existe, e sim que o que é pensável e dizível existe e que o que é pensável nem dizível não existe. Pela primeira vez é afirmada a identidade entre ser, pensa e dizer, ou entre mundo, pensamento e linguagem. Tal identidade é o núcleo da ontologia parmenidiana ou a via da Verdade (CHAUÍ, 2002, p. 91).

Para Parmênides é através da opinião que podemos expressar nossas preferências, nossos sentimentos e interesses, que variam de pessoa para pessoa, eis que o intuito da opinião, de certo modo, nada impede que pudesse ser de outro para uma outra pessoa, em outro momento da vida.

A opinião é instável, mutável, efêmera e por isso, de acordo com Parmênides “as opiniões dos mortais, em que não há verdadeira fidelidade”, isto é, em que não podemos confiar em nos fiar, pois está em constantes mutações.

Assim, os ensinamentos do ser, para Parmênides é a argumentação da única premissa de que o ser é e o não ser não é. Dessa premissa virão, como consequência, que o ser é imóvel, uno, eterno, único, indivisível, indestrutível e pleno ou contínuo, de acordo com Morente (1980, p. 73)

em virtude do princípio de que o ser é, e o não ser não é, princípio que ninguém pode negar sem ser declarado louco, podemos afirmar acerca do ser uma porção de coisas. Podemos afirmar, primeiramente que o ser é único. Não pode haver dois seres; não pode haver mais que um só ser. [...] Mas ainda podemos afirmar que é eterno. Se não o fosse, teria princípio e teria fim. Se tem princípio, é que antes de começar o ser havia o não-ser. [...] Por conseguinte, antes que o ser fosse , havia também o ser; quer dizer, que o ser não tem princípio. Pela mesma razão não tem fim, porque se tem fim, é que chega um momento em que o ser deixa de ser. [...] Mas não fica nisto. Além de eterno, o ser é imutável. O ser não pode mudar, porque toda mudança do ser implica o ser do não ser, visto que toda mudança é deixar de ser o que era para ser o que não era, e, tanto no deixar como no chegar a ser vai implícito o ser do não ser, o que é contraditório. Mas, além de imutável, o ser é ilimitado, infinito. Não tem limites ou dito de outro modo, não está em parte alguma. Estar em uma parte é encontrar-se em algo mais extenso e, por conseguinte, ter limites. Mas o ser não pode ter limites, porque se tem limites, cheguemos até estes limites e suponhamo-nos nestes limites. [...] Mas há mais, e já chegamos ao fim. O ser é imóvel, não pode mover-se, porque mover-se é deixar de estar num lugar para estar em outro. [...] Se resumimos todos esses predicados que Parmênides atribui ao ser, encontramos que o ser é único, eterno, imutável, ilimitado, e imóvel.

Sua doutrina se distingue dos outros filósofos, principalmente monismo e imobilismo, pois Parmênides propôs que tudo o que existe é eterno, imutável, indivisível e imóvel, baseando a sua teoria no que alguns chamam de “Doutrina do Uno”.

Neste sentido, Danilo Marcondes (2008, p. 36) ensina que

Parmênides e os eleatas são adversários dos mobilistas, defendendo uma posição que podemos caracterizar como monista, ou seja, a doutrina da existência de uma realidade única. Parmênides de fato o introdutor de uma das distinções mais básicas no pensamento filosófico, a distinção entre realidade e aparência. Assim, o primeiro argumento contra o mobilismo consiste em caracterizar o movimento apenas como aparente, como um aspecto superficial das coisas. Se, no entanto, formos além de nossa experiência sensível, de nossa visão imediata das coisas, descobriremos, através do pensamento, que a verdadeira realidade é única, imóvel, eterna, imutável, sem princípio, nem fim, contínua e indivisível. Por isso Parmênides afirma que o ser é esférico, a esfera representando o caráter pleno e perfeito do real. Através do pensamento devemos buscar então aquilo que permanece na mudança: só posso entender a mudança se há algo de estável que permanece e me permite identificar o objeto como o mesmo. Portanto, podemos dizer que o segundo argumento contra o mobilismo é um argumento de caráter lógico, sustentando que a noção de movimento pressupõe a noção de permanência como mais básica. Nesse sentido, o movimento não pode ser tratado como mais básico, como primitivo, definidor do real.

Provavelmente, no fim da sua vida, Parmênides teve um momento da mais pura abstração, ou seja, estava purificada de toda a efetividade. Neste tempo, o produto do pensamento de Parmênides é a teoria do ser, que foi sua própria vida em momento de demarcação que se dividiu em dois períodos do pensamento pré-socrático, o primeiro foi baseado na teoria de Anaximandro e a segunda em Parmênides.

Sabe-se que Parmênides, em seu mais extenso texto pré-socrático, afirmou

que aquilo que é não poder não ser, formulando assim uma versão inicial da lei da identidade, um princípio lógico-metafísico que consiste em caracterizar a realidade em seu sentido mais profundo, como algo de imutável, exclui assim o movimento e a mudança como aquilo que não é, porque deixou de ser o que Ra, e não veio a ser ainda o que será, e portanto não é nada; por isso apenas o permanente e imutável pode ser caracterizado como o Ser. [...] Afirma também que é o mesmo o ser e o pensar, o que significa que a racionalidade do real e a razão humana são da mesma natureza, o que permite o homem pensar o ser. Mas para poder pensar o ser, conhecê-lo, o homem deve seguir o caminho da Verdade, isto é, do pensamento, da razão, e afastar-se do caminho da opinião, formada por seus hábitos, percepções, impressões sensíveis, que são ilusórias, imprecisas, mutáveis (MARCONDES, 2008, p. 36).

Todavia, ele parece não ter perdido a sua estrutura bem formada na juventude de pensamento, tendo dito que “verdadeiramente existe apenas um caminho correto: mas, querendo dirigir-se por outro caminho, o único correto é o da minha antiga opinião, por seus bens e sua consequência” (Parmênides apud José Cavalcante de Souza, 1978, p. 146).

Assim, procuravam uma saída, fora daquela oposição e separação de uma dupla ordem do mundo, pois Parmênides afirma a unidade e imobilidade do ser, fixando sua investigação na pergunta “o que é, na tentativa de vislumbrar aquilo que está por detrás das aparências e das transformações. Ele afirmava, que o único caminho da investigação em que se pode pensar é aquele do que ser e do não-ser, para buscar a verdade no ser, e no outro é o caminho impensável de ser seguido, pois não pode conhecê-lo e nem declará-lo.

Dessa maneira, o pensamento de Parmênides é monista, ou seja, ancora-se na

“concepção de unidade (monos) ou totalidade do real para além do movimento, por ele considerado uma característica apenas aparente das coisas. Se o homem seguir a via do pensamento e não a da opinião, mutável e variável, encontrará a verdadeira realidade, a unidade subjacente à diversidade das coisas. É nesse sentido que Parmênides é considerado o filosofo do Ser (‘to eon’), da realidade única, subjacente à pluralidade dos fenômenos, sendo visto como um precursor da metafísica” (MARCONDES, 2000, p. 11).

Buscava o domínio do ser correspondente às coisas que são percebidas pela mente, e pelo outro lado tem o domínio do não-ser, que são as coisas alcançadas por sensações, pois é enganoso e falso.

Neste ponto, Parmênides é o oposto de Heráclito, pois este entende que tudo está em movimento, ou seja, tudo passa e nada permanece. Enquanto Heráclito identifica seu pensamento com o tema do devir, Parmênides utiliza-se da teoria do ser, em evidente contraposição.

Na teoria de Parmênides o ser é e o não-ser não é. Tornar-se-ia ininteligível admitir que um ser caracterizar-se-ia por não-ser, porque para Heráclito o que agora é, ao mesmo tempo não o é em razão do devir (trânsito para o não-ser o que era).

Se Parmênides pleiteava a unidade do ser através de uma suposta conseqüência lógica, que se retira do conceito de ser e não-ser, tendo José Cavalcante de Souza (1978, p. 148) afirmado que

Ele não era uma personalidade tão transformadora como Pitágoras; mesmo assim, teve em suas peregrinações sempre os mesmos impulsos e inclinações: curar, purificar e melhorar os homens. Ele é monista, mas ainda na categoria dos rapsodos; em uma época posterior ele teria sido sofista. Em sua ousada condenação dos costumes vigentes ele não tem para na Grécia; por isso não se recolhia de maneira alguma à solidão, como Platão e Heráclito, mas colocava-se, não um Térsites discordante, exatamente diante daquele público que ele condenava com cólera e ironia, pela sua admiração ruidosa por Homero, pela sua inclinação apaixonada às honras dos festivais de ginástica, por sua adoração pelas pedras com forma humana. Com ele a liberdade do individuo está no seu ponto mais alto; e, nesta fuga quase sem limites de todas as convenções, ele está mais próximo de Parmênides do que naquela suprema unidade divina que ele viu uma vez, em um daqueles estados de visão dignos de seu século, que tem em comum a visão do ser de Parmênides apenas a expressão e a palavra mas não certamente a origem.

Não se conformando com as críticas a Heráclito, Parmênides, nas palavras de Morente (1980, p. 73) descobre o que os lógicos atuais chamam “princípio da identidade”, que implicaria dizer que existe apenas um ser, e que este seria eterno, imutável e imóvel.

Ademais, Parmênides tem uma visão completamente oposta a Heráclito, pois ele comparava as qualidades umas com as outras e acreditava descobrir que elas não são todas idênticas, mas devem ser ordenadas em duas classes, quais sejam, ele comparou a luz e a escuridão e, assim, a segunda qualidade era manifestamente apenas a negação da primeira, e assim, ele diferenciava qualidades positivas e negativas

esforçando-se seriamente por reencontrar e assinalar esta oposição fundamental em todo o reino da natureza. Seu método era no seguinte: ele tomava alguns opostos, por exemplo leve e pesado, sutil e denso, ativo e passivo, e os remetidos àquela oposição modelo entre luz e obscuridade, a qualidade negativa. Ele tomava o pesado e o leve: o leve ficava ao lado da luz, o pesado do lado obscuro; e assim o pesado valia para ele apenas como negação do leve, este valendo como uma qualidade positiva. Neste método já se revela uma aptidão ao procedimento lógico abstrato, resistente e fechado às insinuações dos sentidos. O pesado parece oferecer-se insistentemente aos sentidos como qualidade positiva, o que não detinha Parmênides em marcá-lo com uma negação. Da mesma forma ele indicava a terra em oposição ao fogo, o frio em oposição ao quente, o denso em oposição ao sutil, o feminino em oposição ao masculino, o passivo em oposição ao ativo, cada um apenas como negação do outro; de tal maneira que, segundo sua visão, nosso mundo empírico cindia-se em duas esferas separadas: naquela das qualidades positivas – com um caráter luminoso, ígneo, quente, delgado, ativo, masculino – e naquela das qualidades negativas. As últimas exprimem propriamente apenas a falta, a ausência das outras, das positivas; ele descrevia também a esfera onde faltavam as qualidades positivas como obscura, terrestre, fria, pesada, espessa e em geral com caracteres passivo-femininos. Ao invés das expressões ‘positivo’ e ‘negativo’, ele tomava os rígidos termos ‘ser’ e ‘não-ser’ e chegava com isso à tese, em contradição a Anaximandro, que este nosso mundo contém algo de ser e sem dúvida também algo de não-ser. Não se deve procurar o ser fora do mundo e como que acima do nosso horizonte; deve-se – buscá-lo diante de nós, em todo vir-a-ser está contido algo de ser e em atividade (SOUZA, 1978, p. 147).

Assim, Parmênides afirma que o que é vir-a-ser, precisa tanto do ser quanto do não ser, pois agem conjuntamente para resultarem o vir-a-ser. O vir-a-ser estabelece as mudanças e transformações físicas, haja vista ocorrer apenas uma mistura participativa de ser e do não-ser, pois o vir-a-ser é um desejo que implica os elementos de qualidade opostas para ser unirem, e o resultado é o descobrimento do que deve vir-a-ser.

Desta feita, quando o desejo está satisfeito, o ódio e o conflito interno impulsionam o ser e o não-ser à se separarem, pois Parmênides chega a conclusão de que toda mudança é ilusória, só existe fundamentalmente o ser e o não-ser, haja vista ser o via-a-ser apenas uma ilusão sensível. Assim, para Parmênides, todas as percepções dos nossos sentidos são meras ilusões, nos quais temos a tendência de pensar que o não-ser é, e o vir-a-ser tem um ser.

Além do mais, entende e decifra o ser como uma realidade absoluta, imutável, estática, de toda a realidade, sendo a essência deve ser incorporada na individualidade divina do Ser absoluto, que pertence a todo o Universo.

Assim, nas palavras de Parmênides, em seu poema que trata da verdade, ensina

Que o ser não é engendrado, e também é imperecível:

com efeito, é um todo, Imóvel, sem fim e sem começo.

Nem outrora foi, nem será, porque é agora tudo de uma só vez,

uno, contínuo. Que origem buscarás para ele?

Como e onde teria crescido? Do não ser, não te permito

Dizê-lo nem pensá-lo: não é possível dizer nem pensar

o que não é [...]

E nem sequer do ser concederá a força da crença veraz

que nasça algo diferente dele mesmo: por esta razão, nem o nascer

nem o morrer lhe concedeu Díke [...]

E como poderia existir o ser no futuro? E como poderia nascer?

Se nasce, não é; e tampouco é, se é para ser no futuro

E assim se apaga o nascer e desaparece o perecer. [...]

Nem existe não ser que lhe impeça alcançar a plenitude

Nem pode ser ora mais pleno, ora mais vazio porque é todo inteiro inviolável,

igual a si mesmo em todas as panes [...]

Todas as coisas são meros nomes

dados pelas crenças dos mortais:

nascer e perecer, ser e não ser,

mudar de lugar e mudar de luminosa cor” (Parmênides apud Marilena Chauí, 2002).

 

Neste poema, de acordo com tais pensamentos de Parmênides fazem-nos compreender que os sentidos devem ser abandonados, pois são os mesmos que guiam a opinião, e em função disso é fácil perceber que somos enganados pelos sentidos, não sendo confiáveis para o conhecimento e a busca da verdade, pois a verdade somente é alcançada pelo pensamento puro.

A experiência sensorial nos faz entender e compreender que tudo é movimento, está em eterna mutação, o que afasta o pensamento puro, que se afasta da percepção sensorial e opera argumentos lógicos, o que gera as consequências racionais da premissa do ser é, o não ser não é.

Na teoria parmenidiana somente o pensamento puro que pode argumentar, tendo este como características ser é: imóvel ou imutável, pois se mudar se torna aquilo que ele não é; eterno e indestrutível, haja vista não ter origem, nascimento ou futuro;  uno, pois deve ser único; indivisível  ou contínuo, pois não pode ser dividido em partes; pleno, pois se houvesse intervalos em seu interior perderia a sua essência; e limitado.

Ao final, Parmênides põe a sua doutrina na boca da Deusa que o acolhe benignamente, tendo esta, que é o símbolo da verdade que se revela, capaz de indicar três caminhos que poderão ser seguidos (REALE, 1990)

O primeiro é o da verdade absoluta, que Parmênides relata: “pois bem, eu te direi – escuta a minha palavra – apenas em que caminhos de busca se pode pensar: um é que é e não é possível que não seja – essa é a senda da persuasão, porque atrás de si tem a verdade” (REALE, 1990, p. 50).

 Neste contexto, para Parmênides o ser e o não ser são tomados de um significado integral, pois o ser é positivamente puro e o não ser é o negativo puro, sendo um verdadeiro contraditório um do outro.

O segundo das opiniões falazes, isto é, o caminho da falsidade, do erro, da ilusão, afirmando Parmênides

afasta o pensamento desse caminho de busca e que o hábito nascido de muitas experiências humanas não te force, nesse caminho, a usar o olho que não vê, o ouvido que retumba e a língua: como  pensamento, julga a prova que te foi fornecida com múltiplas refutações. Um só caminho resta ao discurso: que o ser é (REALE, 1990).

O caminho da verdade é o único correto, os outros são meras ilusões, que são substancialmente o caminho dos sentidos, que podem atesta o não ser, à medida que demonstram o movimento e a mudança, o nascer e o morrer.

E, por último, o caminho da opinião plausível, que trata do reconhecimento da licitude do discurso que procura dar conta dos fenômenos e das aparências das coisas, como se voltasse contra o grande princípio da verdade, não admitindo, juntos, o ser e o não ser.

A crítica maior de Parmênides é contra os filósofos de Mileto e mais contra os pitagóricos, em sua crença de que o ser é unidade e dualidade, identidade e mobilidade, e principalmente contra Heráclito, em sua crença de que o ser é unidade e multiplicidade, eternidade e devir, na sua duradoura luta dos contrários.

Entende, ainda, que os mortais trocam o ser pelo não ser, pois a opinião prende-se à aparência e à mutabilidade das coisas, sem perceber que o pensamento somente pode pensa e a linguagem somente pode dizer, se cada um permanecer idêntico a si mesmo e com o pensamento puro, haja vista ser irreal as constantes mutações, movimentos, oposições e contrariedades.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Parmênides foi o fundador da escola eleática, que sustenta: a unidade e a imobilidade do Ser; o mundo sensível como uma ilusão; o Ser sendo uno, eterno, imutável.

Dessa forma, afirmava que o que é vir-a-ser, precisa tanto do ser quanto do não ser, pois agem conjuntamente para resultarem o vir-a-ser. O vir-a-ser estabelece as mudanças e transformações físicas, haja vista ocorrer apenas uma mistura participativa de ser e do não-ser, pois o vir-a-ser é um desejo que implica os elementos de qualidade opostas para ser unirem, e o resultado é o descobrimento do que deve vir-a-ser.

Quando o desejo está satisfeito, o ódio e o conflito interno impulsionam o ser e o não-ser à se separarem, pois chega-se a conclusão de que toda mudança é ilusória, só existe fundamentalmente o ser e o não-ser, haja vista ser o via-a-ser apenas uma ilusão sensível, sendo todas as percepções dos sentidos meras ilusões, nos quais temos a tendência de pensar que o não-ser é, e o vir-a-ser tem um ser.

Na teoria parmenidiana somente o pensamento puro que pode argumentar, tendo este como características ser é: imóvel ou imutável, pois se mudar se torna aquilo que ele não é; eterno e indestrutível, haja vista não ter origem, nascimento ou futuro;  uno, pois deve ser único; indivisível  ou contínuo, pois não pode ser dividido em partes; pleno, pois se houvesse intervalos em seu interior perderia a sua essência; e limitado.

Para Parmênides, a opinião é a via da experiência sensorial, pois a via da verdade, que é ancorado no pensamento puro, no intelecto que se separa das emoções e sensações do mundo. Por isso, onde os sentimentos veem, tocam, sentem as mudanças e oposições que ocorrem entre si, sendo o pensamento uma mera ilusão. Portanto, somente há um ser, que é uno, único, eterno, contínuo, indivisível e imóvel, sendo esta a sua identidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos Pré-Socráticos a Aristóteles. Volume I. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da Filosofia: dos Pré-Socráticos à Wittgenstein. 12. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

MARCONDES, Danilo. Textos básicos de filosofia: dos Pré-Socráticos à Wittgenstein. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

MORENTE, Manuel Garcia. Fundamentos de Filosofia: lições preliminares. 8. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1980.

REALE, Giovanni. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. Volume I. 6. ed. São Paulo: Paulus, 1990.

SOUSA, José Cavalcante de. Filosofia antiga: os Pré-Socráticos fragmentos, doxografia e comentários (Os Pensadores). 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

 

[1] Mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela Faculdade de Direito de Vitória – FDV. Graduada pela Faculdade de Direito de Vila Velha. Professora da Faculdade São Geraldo/ES. Assessora do Ministério Público do Estado do Espírito Santo.


Elaborado em março/2013

Jackelline Fraga Pessanha

Mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela Faculdade de Direito de Vitória - FDV. Graduada pela Faculdade de Direito de Vila Velha. Professora da Faculdade São Geraldo/ES. Assessora do Ministério Público do Estado do Espírito Santo.

Inserido em 21/10/2013

Parte integrante da Ediçao no 1113


Forma de citação

PESSANHA, Jackelline Fraga. FUNDADOR DA ESCOLA ELEÁTICA: o estudo da obra de ParmênidesBoletim Jurídico, Uberaba/MG, a. 5, no 1113. Disponível em: <http://www.boletimjuridico.com.br/ doutrina/texto.asp?id=2844> Acesso em: 17  ago. 2019.