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Portal Boletim Jurídico - ISSN 1807-9008 - Brasil, 18 de julho de 2019

Ética e Política

 

Thaís Soares de Oliveira

 

RESUMO: A relação entre ética e política é um dos temas mais antigos e permanentes que atravessou séculos procurando lidar com o dilema das ações políticas. Apesar de ser um assunto recorrente, persiste sendo polêmico e atual, e adquire características próprias devido à época e espaço. Refletir sobre essa relação é o que pretende este trabalho, baseando-se em conceitos éticos elaborados pelos filósofos mais importantes da história e fazendo uma ligação com a política da época. Após a reflexão histórica, faz-se uma análise dessa relação na atualidade, principalmente a nível de Brasil, ressaltando os escândalos de maior repercussão das duas últimas décadas. Enfim, busca-se conhecer os valores e princípios que norteiam a política.
Descritores: Ética, política e filosofia.

ABSTRACT: The relation between ethics and politics is an age-old and constantly debated issue, that continued throughout the centuries to deal with the dilemmas of political action. Although, its recurring character, remains as polemical and modern that obtain new characteristics due to epoch and area. Reflecting about this relation is what this project aspires, based on ethics conceptions organized by means of the most important philosophers in the historic period, and making a connection with politics. After a historic reflection, it is analyzed this relation nowadays, essentially in Brazil, emphasizing the mainly scandals of these last decades. Finally, it aims knowing the values and principles that rule politics.
Key Words: Ethics, politics and philosophy.

Introdução

Até que ponto a política é compatível com a ética? A política pode ser eficiente se incorporar a ética? Não seria puro moralismo exigir que a política considere os valores éticos? (SILVA, 2002).
O assunto em si suscita ampla controvérsia, dado o preconceito mais ou menos generalizado em relação à atividade política, percebida como campo muito pouco propício a comportamentos ditados pela moral. Efetivamente, nem sempre há convergência entre prática política e princípios morais, entre respeito à verdade e eficiência no exercício do poder. Este desencontro é muitas vezes interpretado em termos de uma incompatibilidade inelutável a situar Ética e Política em domínios opostos (DINIZ, 1998).
Nota-se que a realidade moral varia historicamente e, com ela, variam os seus princípios e normas universais que se deixassem de lado a experiência moral histórica, afastariam da teoria precisamente a realidade que deveriam explicar. Também é certo que muitas doutrinas éticas do passado não são uma investigação ou esclarecimento da moral como comportamento efetivo, humano, mas uma justificação ideológica de determinada moral, correspondente a determinadas necessidades sociais, e, para isto, elevam seus princípios e as suas normas à categoria de princípios e normas universais, válidos para qualquer moral (VÁZQUEZ, 2002). Assim, qualquer discussão sobre ética e valores políticos precisa ser situada em algum lugar entre a condição coletiva de vida e a condição de cada indivíduo, entre o que é universal e o que é particular ao indivíduo, entre o passado e o futuro, entre o que deriva do intelecto e da compreensão e o que se origina no sentimento e na percepção (FREIRE, 2005).
O objetivo deste trabalho, portanto, é recuar ao passado a fim de tomar conhecimento dos conceitos éticos, pertinentes a cada época da História, e como estes se relacionam com a política.

Revisão de Literatura

I Definição de Moral e Ética
A etimologia dos termos moral e ética é semelhante: moral vem do latim mos ou mores, “costume” ou “costumes”, no sentido de conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito. A moral se refere, assim, ao comportamento adquirido ou modo de ser conquistado pelo homem; ética vem do grego ethos, que significa analogamente “modo de ser” ou “caráter” enquanto forma de vida também adquirida ou conquistada pelo homem. Portanto, originariamente, ethos e mos, “caráter” e “costumes”, assentam-se num modo de comportamento que não corresponde a uma disposição natural, mas que é adquirido ou conquistado por hábito (VÁZQUEZ, 2002; ARANHA & MARTINS, 2000).
A moral, ao constituir-se como um fenômeno que regula a vida social e que julga o agir considerado correto ou errado, coloca a questão da tensão/conflito que se estabelece entre o sujeito e a esfera social (MEKSENAS, 2004). Assim como umas sociedades sucedem a outras, também as morais concretas, efetivas, se sucedem e substituem umas às outras. Portanto, a moral é um fato histórico e, por conseguinte, a ética, como ciência da moral, não pode concebê-la como dada de uma vez para sempre, mas tem de considerá-la como um aspecto da realidade humana mutável com o tempo. Mas a moral é histórica precisamente porque é um modo de comportar-se de um ser que por natureza é histórico, isto é, um ser cuja característica é de estar-se fazendo ou se autoproduzindo constantemente tanto no plano de sua existência material, prática, como no de sua vida espiritual, incluindo nesta a moral (VÁZQUEZ, 2002).
A política e a moral pertencem a domínios diferentes da práxis humana. O sujeito da política é a coletividade, a Polis. Na esfera da ação política o que importa é a certeza, os efeitos e a fecundidade dos resultados. O criador de cidades terrenas, condutor de homens e do Estado, é julgado pelo seu sucesso ou fracasso e não por considerações morais. Seu lema é: fazer o que é necessário, a fim de que aconteça o que se objetiva. Sua ética é da responsabilidade – como definiria Max Weber (SILVA, 2003).
A ética é a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade, fundamentando-se na natureza humana, de onde surge a fonte de seu comportamento. Assim, a ética brota de dentro do ser humano, daqueles elementos que o caracterizam na sua experiência como homem, diferenciando-o dos outros seres; ela exige antes a determinação da sua realidade ontológica para estabelecer a forma do comportamento. Portanto, esta ciência ocupa-se de um objeto próprio: o setor da realidade humana que chamamos moral (VÁSQUEZ, 2002; CAMARGO, 2004; RATTNER, 2005).
Ética é a ciência dos costumes. Já a moral não é ciência, senão objeto dela. Como ciência, a ética procura extrair dos fatos morais princípios gerais a eles aplicáveis. Enquanto conhecimento científico, a ética deve aspirar a racionalidade e objetividade mais completas e ao mesmo tempo, deve proporcionar conhecimentos sistemáticos e, no limite do possível, comparável (NALINI, 2001; VÁSQUEZ, 2002).
O que designaria a ética seria não apenas uma moral, mas uma verdadeira “metamoral”, uma doutrina situada além da moral. Daí a primazia da ética sobre a moral: a ética é desconstrutora e fundadora, enunciadora de princípios ou de fundamentos últimos (NALINI, 2001; RATTNER, 2005).

II Ética e Política na Antiguidade
Foram os gregos na antigüidade que inventaram o espaço da política enquanto expressão da vontade coletiva, isto é, enquanto esfera da ação humana que submete a vontade arbitrária e privada do poder pessoal do governante às instituições públicas. Dessa forma, cunharam a distinção entre a autoridade pública - expressão do coletivo - e autoridade privada – identificada com o déspota, o chefe da família (SILVA, 2002).
O mais importante, para os antigos gregos, era a política e a vida social em torno da polis. O que importava para o ateniense era a vida em comunidade e a concepção coletiva era a idéia que prevalecia na democracia antiga, o público superava o privado. O homem só existia de forma plena enquanto cidadão fazendo parte de uma comunidade política. O ideal comum impunha-se a todos, e o indivíduo era visto sobretudo como parte do órgão coletivo, do corpo social (VILANI, 2000). Assim, compreendendo o homem como um animal político, para os gregos, a idéia de política – quer radique na natureza quer nas convenções – prende-se à acepção de liberdade, de ausência de um senhor (BOTO, 2000).
A história da filosofia grega atinge seu esplendor teórico justamente no momento de maior desagregação interna, de dominação da política, de dacadência dos velhos modos de vida, da superação da riqueza material pela intelectual. É nesse contexto que os esforços intelectuais de Sócrates, Platão e Aristóteles devem ser entendidos. Quando se enxerga a questão por este prisma, o fato de Sócrates ter “inventado” a Ética revela não o surgimento de uma nova ordem, mas antes a necessidade de se refletir, sistematizar e defender conceitos que antes eram dados como automáticos, em especial quanto à essência da ética, ou seja, as relações entre o bem comum e a felicidade individual (GOMES, 2000).
Segundo os filósofos da Antiguidade, a utopia ética seria alcançada pelo comportamento virtuoso, em conformidade com a natureza dos atores sociais e dos fins buscados por eles. Postularam que o ser humano seria, por natureza, um ser racional e, portanto, a virtude ou o comportamento ético seria aquele no qual a razão comande as paixões. Cada ser humano, sob a inspiração da razão, realizará a boa finalidade ética determinada por seu lugar na ordem do mundo social, político e natural. Essas virtudes seriam efeitos de uma potencialidade da natureza humana, desde que a razão comande as paixões e oriente a vontade (RATTNER, 2005).
Conseqüente de não se distinguirem a inteligência e a vontade, nas idéias de Sócrates, é a afirmação de que o conhecimento do bem se identifica com a prática da virtude. Quem sabe a verdade, age bem. Demais disso, a felicidade, para Sócrates, consiste em fazer o bem, de modo que o homem virtuoso é o homem feliz. Daí que se identifiquem a felicidade e a virtude: fala-se aí na eupraxia (que, ao mesmo tempo, significa fazer o bem e estar bem) e no eudemonismo socrático (o bem-estar moral) (NALINI, 2001).
Na ética de Platão, discípulo de Sócrates, há a relação entre as partes da alma e a doutrina das virtudes. São as virtudes que atuam em coordenação e cuja harmonia constitui a justiça. Há um idealismo moral intenso na ética platônica, para quem a virtude vale tanto quanto a felicidade. A ética é um aspecto, apenas, da filosofia prática, segundo ele. O outro aspecto é a política. Por isso, o problema moral não é individual, mas coletivo (NALINI, 2001). Assim, à dissociação entre o mundo real e os valores éticos Platão contrapõe a necessidade de uma reconstrução da sociedade perfeita, sugerindo a substituição da plutocracia que reinava na Atenas Imperial dos mercadores por uma “timocracia do espírito” na qual os governantes seriam os melhores dentre os homens de seu tempo em termos de conhecimento e sabedoria. Portanto, o reencontro da ética com a realidade, se daria através de uma grande reforma social, política e econômica que tornaria a cidade mais simples, mais desligada dos valores materiais, mais igualitária (GOMES, 2000).
Para Aristóteles, a finalidade da ética é descobrir o bem absoluto que chamando-se de felicidade, ela está no exercício, firme e constante, da virtude que é o justo meio entre dois vícios extremos (NALINI, 2001). A felicidade, para ele, era a vida boa; e esta correspondia à vida digna. Nessa direção, haveria uma subordinação da ética à política: os tratados éticos e os tratados políticos pertencem a um mesmo estudo, classificado como política, que é compreendida por ele como a forma de vida que melhor corresponde à condição humana, embora, paradoxalmente, a atividade superior resida no campo da teoria pura: “o sujeito da virtude é o homem público, posto que a vida privada carece de interesse: é idion, idiota. Os homens são, sobretudo, cidadãos; encerrados em si próprios, não viveriam uma vida racionalmente humana. (BOTO, 2000).
Portanto, há elos que ligam os conceitos de Ética defendidos por Sócrates - a noção que basta saber o que é o Bem para praticá-lo - por Platão - segundo o qual é essencial conhecer a Idéia Geral do Bem - e por Aristóteles - para quem o Bem equivale à moderação das paixões. Todos os três estabelecem como fonte da Ética a noção que a Felicidade - entendida no sentido mais amplo da eudaimonia (a felicidade da harmonia interior) - era a recompensa dos virtuosos (GOMES, 2000).


III Ética e política na Idade Média
O longo período que se estende entre o século VI e XV, é marcado pelo predomínio absoluto da moral cristã. Deus é identificado com o Bem, Justiça e Verdade. É o modelo que todos os homens deviam procurar seguir. Neste contexto, dificilmente, se concebe a existência de teorias éticas autônomas da doutrina da Igreja Cristã, dado que todas elas de uma forma ou outra teriam que estar de concordo com os seus princípios, os quais se baseiam na prática da virtude da justiça estabelecendo uma aliança entre a cidade celestial e a terrestre, entre a vida na comunidade de fé e a vida na sociedade política, a busca da mesma meta: a vida justa e feliz para todos na história (PEGORARO, 2002; FONTES, 2006).
E por isso que, para os pensadores cristãos, a justiça, como ponte que une a comunidade de fé e a sociedade política, é também o ponto central de toda a ética (PEGORARO, 2002).
Podem-se citar as Teorias Éticas Fundamentais de:
Santo Agostinho: fundamentou a moral cristã, com elementos da filosofia clássica. O objetivo da moral é ajudar os seres humanos a serem felizes, mas a felicidade suprema consiste num encontro amoroso do homem com Deus. Só através da graça de Deus o homem poderá ser verdadeiramente feliz (FONTES, 2006).
Toda sociedade humana, segundo Agostinho, procurava paz. Enquanto a cidade humana realiza a busca da dominação e o gozo de bens materiais, a cidade de Deus realiza a paz mediante a união no amor de Deus. Diante da divergência de valores, as cidades estavam em luta (NALINI, 1999).
São Tomás de Aquino: no essencial concorda com Santo Agostinho, mas procura fundamentar a ética tendo em conta as questões colocadas na Antigüidade Clássica por Aristóteles (FONTES, 2006).
Assim o Cristianismo introduziu nos últimos séculos do Império Romano, a idéia de igualdade entre todos os homens, filhos do mesmo Deus, uma noção que contestava implicitamente a escravidão, fundamento social econômico do mundo antigo. Mas ao tornar-se religião oficial, o cristianismo aliou-se ao poder temporal e admitiu a organização social existente, inclusive à cativeiro (LUCCA, 2003).
A idéia de que a política é uma esfera de ação laica ou profana, independente da religião e da Igreja foi desenvolvida no final da Idade Média por um jurista como Marsílio de Pádua. Também, a idéia de valor e da importância da observação e da experiência para o conhecimento humano aparece com os filósofos como Roger Bacon ou Guilherme de Ockam (CHAUÍ, 1997).

IV Ética e política na Idade Moderna
Entende-se por Idade Moderna o período que se estende desde o século XV ao XIX, no qual se iniciou um processo de racionalização, destacando-se uma tendência antropocêntrica que se contrasta com a idéia teocêntrica da Idade Média. As bases da ética passaram a se fundamentar neste racionalismo. O homem passa a ocupar o centro da política, da ciência e da moral. Neste período. Consolida-se a classe burguesa e junto a ela o Estado Moderno, o qual ganhou a função de modificar a distribuição do poder. Os reis que sempre se confrontavam com a Igreja, passam a ter o monopólio legítimo da força política. Conjugado a este fato, surge uma nova visão de princípios morais que se contrapõem aos princípios que regiam a Idade Média, surgindo uma divisão entre ética moral (ética política medieval fundia Estado e Igreja) e ética política. Muitos filósofos como Maquiavel, Thomas Hobbes, Kant esporam seus respectivos pontos de vista sobre esta “nova fase” da ética, que abandonaria a ética política medieval e traria novos preceitos da moral política (ARANHA & MARTINS, 2000).
Um dos primeiros filósofos a perceber a especificidade da política Moderna foi Maquiavel (1469-1527), renascentista, que se opondo aos estudiosos da época, não concordava com a teoria que pregava modelos ideais de um bom governo e de uma sociedade justa que, na realidade concreta, não funcionava (SILVA, 2002).
Para Maquiavel, a ética política não está interessada em quais são os propósitos e as intenções dos governantes, mas sim em como fazer para ascender e permanecer no poder. Segundo sua visão, o que pode ser considerado imoral no ponto de vista ético, pode não o ser do ponto de vista político, já que a política possui um fim em si mesma: manter a ordem e as instituições de poder (SILVA, 2002).
Enfim, em sua definição do que é ser político “virtuoso”, ele deixa bem claro que não é ser uma “pessoa boa”, mas sim conseguir manter-se no poder visando o bem e a estabilidade da comunidade. Mesmo que para isso precise ser insensível frente a graves problemas, pois agora a política Moderna não passa de ser racional e impessoal (ARANHA & MARTINS, 2000). Assim, um bom governante, por exemplo, que é forçado pela necessidade a usar a violência visando o bem coletivo, está agindo conforme a ética política, mesmo que isso pareça imoral. Mas o tirano que age por capricho é, sim, um imoral.
Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo inglês, propõe que os princípios morais sejam válidos por um contrato entre as partes interessadas. Nesse contrato, todos abdicariam de suas vontades, e somente um homem ou um grupo seria responsável pelas escolhas da sociedade. Para ele o homem não é sociável por natureza, e precisa que o estado julgue sobre o bem e o mal, o justo e o injusto e ninguém pode discordar (SILVA, 2002).
Montesquieu (1689-1755) foi um filósofo francês iluminista que discordando dos anteriores citados, deixa claro a limitação de poder que deve haver perante o soberano. Para um governo manter princípios éticos, é necessária a divisão dos poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) para que um limitasse o outro, evitando, assim, abuso de poder, violência e ainda garantindo autoridade por meios legais ao Estado sobre a sociedade (ARANHA & MARTINS, 2000).
Rousseau (1712-1778), filósofo suíço, que como todo pensador liberal é contra o absolutismo. Propõe uma visão mais democrática do poder. Volta a citar o contrato social de Hobbes, porém deixa bem claro que o governante deve expressar a vontade da maioria, respeitando a sociedade e não se impondo sobre ela (ARANHA & MARTINS, 2000).


V Ética e política na Idade Contemporânea
A ética contemporânea surge numa época de contínuos progressos científicos e técnicos, e de um imenso desenvolvimento das forças produtoras que acabarão por questionar a própria existência da humanidade (CRESPIGNY & MINOUGUE, 1979).
Olhando o final do século XVIII, a Revolução Francesa (1789) marcou uma ruptura deliberada e radical com o passado. Depois dela, muitos outros ocorreram até os nossos dias com idênticos propósitos, prometendo criar novas sociedades e homens. Vieram, porém, à afloração e agução, na sociedade, as contradições profundas que influenciam até os dias de hoje (VÁZQUEZ, 2002).
A política e a ética contemporânea assentaram-se em um aspecto essencial: a crescente eficiência da barbárie praticada por poderosas máquinas de guerra que passaram a operar numa escala cada vez mais global. A dimensão dessa barbárie colocou a política, entre os homens, mais irracional. Os exemplos das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasáki durante a Segunda Guerra Mundial, e da recente invasão dos Estados Unidos ao Iraque, provam que os homens se tornaram mais individualistas e competidores (GUERRA, 2005).
A atual política não parece estabelecer limites para o desenvolvimento da ciência e tecnologia, e nem limites para se conseguir o poder (MARQUES, 2004; FONTES, 2006). O que era antes impensável acabou tornando-se banal, como: manipulações genéticas, clonagem de seres, inseminação artificial, morte assistidas. Valores tidos como sagrados são cotidianamente aniquilados por experiências científicas, abalando assim uma sociedade anti-homem e anti-cultura (CRESPIGNY & MINOUGUE, 1979).
Ironicamente, muitas coisas que os homens fizeram com a finalidade de tornar o mundo mais suportável de se viver, de diminuir a escassez humana, de trazer o bem-estar, tiveram o efeito de piorá-lo (VÁZQUEZ, 2002; FONTES, 2006). A ciência substituiu o lugar que antes era ocupado pela religião, uma vez que aquela aliada à tecnologia possibilitou uma melhoria muito significativa nas vidas de uma parte da humanidade (OLIVEIRA).
Os séculos XIX e XX foram marcados pelo aparecimento de um enorme número de teorias éticas que serão explicitadas, brevemente, a seguir:
O Existencialismo que acredita no livre arbítrio, no indeterminismo, no liberalismo. Atribui grande importância ao isolamento e à solidão. Seus principais defensores são: Kierkegaard (afirma o valor máximo do homem individual), Max Stirner (pretende recuperar o homem concreto, encontrando-o no “eu”) e Jean-Paul Sartre (defende que a liberdade é a única fonte de valor para o homem) (CRESPIGNY & MINOUGUE, 1979; BRONDANI, 2000).
O Pragmatismo afasta-se dos problemas abstratos da velha metafísica, preocupando-se com as questões práticas, entendidas num sentido utilitário. Seus principais expoentes são Ch. S. Pierce, W. James e J. Dewey (BRONDANI, 2000; VÁZQUEZ, 2002).
A Psicanálise, elaborada por Freud, ao admitir que muitos comportamentos são inconscientes, contribui para a ética, pois se todo ato moral é aquele em que o homem age consciente e livremente, então o ato consciente não deve ser incluído no campo moral. A psicanálise auxilia a ética a colocar no seu verdadeiro, aquelas normas que são impostas ao sujeito de maneira autoritária e que, portanto, são alheios à moral (VÁZQUEZ, 2002).
O Marxismo prega que o homem é real, é em unidade indissolúvel, um ser espiritual e sensível, natural e propriamente humano, teórico e prático, objetivo e subjetivo. Como doutrina ética, oferece uma explicação e uma crítica das morais do passado ao mesmo tempo em que evidencia as bases teóricas e práticas de uma nova moral. Marx tenta recuperar o homem concreto (CRESPIGNY & MINOUGUE, 1979; VÁZQUEZ, 2002).

VI Ética e Política Contemporânea no Brasil
Diante da paradoxal sociedade brasileira, na qual a história deixou tantas marcas de injustiça permanecem, porém, a vitalidade e a capacidade de evoluir, que saltam aos olhos de todo o compromisso ético que obriga diante da realidade política, independente das vicissitudes do presente, de continuar trabalhando para a construção de uma democracia respeitadora dos direitos humanos e companheira de uma economia mais solidária – além de próspera, sustentável e respeitosa da natureza -, para uma sociedade mais feliz; não apenas igualitária do ponto de vista legal, mas, com mais justiça social, melhor distribuição de renda, menos violência. Esta utopia concreta continua a lutar por se realizar em nosso país, com dificuldade. É uma utopia viável, porque materialmente as riquezas brasileiras a fazem possível e as aspirações populares a demonstram desejada. Espera-se que o núcleo de paixões e interesses em contenda no momento político, se deixe medir pela responsabilidade patriótica. Tendo no horizonte esta utopia que permanece válida (ALBORNOZ, 2005). Porém, os últimos acontecimentos aos quais o Brasil teve de assistir, não foram nada animadores no que diz respeito a mudanças realmente esperadas. O escândalo mais chocante foi o do governo de Collor, em que era praticado tráfico de influência e irregularidades financeiras organizadas pelo empresário Paulo César Farias. O resultado, que abalou profundamente o Brasil, foi o Impeachment. Passados treze anos, veio à tona o assunto sobre “Mensalão”, que provocou uma crise tão profunda quanto àquela da época de Collor. Assim, o povo brasileiro sofre desilusões em relação a quem confiaram as mudanças.
Mesmo porque, a subordinação de funções públicas a interesses pessoais é quase unanimemente apontada por consultores políticos como característica de política brasileira. Quanto maior a confusão entre o público e o privado, mais fértil é o terreno da corrupção. E mais, o processo decisório se submete à lógica de que os cargos políticos são posses de seus mandatários, e não, como supõe a semana democrática, mecanismo de representação do coletivo nos poderes constituídos (URSO, 2004).
A única possibilidade que existe para que a Ética possa ser exercida na Política hoje, é a partir de uma mudança de mentalidade e conseqüentemente de atitude da própria população. Deve-se acabar com a percepção de que os nossos representantes fazem “favores para o povo” e de que são revestidos com uma aura de poder. Eles são funcionários públicos sustentados pelos impostos pagos e que devem obrigações para a população. Além disso, a ética deve permear todas as relações cotidianas; seja em casa, no trabalho ou na comunidade. A maldita lei de Gérson, de tirar pequenas vantagens no dia a dia, em prejuízo de outras pessoas, ou o desvio de milhões de reais dos cofres públicos, são dois exemplos de corrupção, em diferentes proporções, é claro. Tem-se que avançar como sociedade, refazer os conceitos, as relações sociais para compreender que o bem comum só será garantido com a participação de todos os cidadãos. Não se pode continuar transferindo essa responsabilidade para outras instâncias. Devem ser definidos, com clareza, os papéis na sociedade para que se construa uma verdadeira Comunidade Ética (NETO, 2005).

Conclusão
Após ter discorrido sobre ética neste trabalho, pode-se concluir que a ética não muda. É uma ciência que sempre esteve e estará em busca do bom comportamento humano, visando os valores positivos.
O que muda, durante o passar do tempo, é o conceito dos valores positivos construídos pela humanidade. A concepção de mudança moral ficou clara quando foram expostos os conceitos morais que prevaleceram nas idades da história.
Em particular, tratou-se da política relacionada à ética e, indubitavelmente, à moral. Campos diferentes - por esta tratar-se do privado e aquela, do público - mas que devem ser conciliados, pois, os atos políticos podem, e devem ser julgados pela consciência moral dos cidadãos.
Enfim, a pretensão do trabalho não é trazer fórmulas de comportamentos impecáveis no âmbito político, e sim, deixar claro que para um político ser ético deve preservar os valores positivos de sua época, fazendo o bem comum da sociedade, pois, as conseqüências de suas atitudes serão perpetuadas na história política da nação. E mais, para que uma ação política tenha sucesso, os cidadãos devem participar ativamente e serem fiscalizadores de seu bom andamento.

Referências Bibliográficas

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Data de elaboração: junho/2009

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Thaís Soares de Oliveira

Academica.

Inserido em 19/02/2011

Parte integrante da Edição no 752

Código da publicação: 2210

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Citação deste artigo, segundo as normas da ABNT:

OLIVEIRA, Thaís Soares de. Ética e PolíticaBoletim Jurídico, Uberaba/MG, a. 12, no 752. Disponível em: <https://www.boletimjuridico.com.br/ doutrina/artigo/2210/etica-politica> Acesso em: 18  jul. 2019.

Atenção

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