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Portal Boletim Jurídico - ISSN 1807-9008 - Brasil, 23 de julho de 2019

As ciências humanas: paradigma e análise estrutural

 

Carolline Leal Ribas; Juscelino Silva

 

Resumo

Neste artigo, discute-se a natureza do método científico nas ciências humanas e a forma adequada de usá-lo nas pesquisas acadêmicas.

Palavras-chave: Ciências Sociais, método, paradigmas.

Abstract

In  this article, we discuss the nature of the scientific method in the humanities and the proper way to use it in academic research.

Keywords: 

Social Sciences, method, paradigms.

1.      Introdução

O termo “ciências humanas” para designar a psicologia, a história, a economia política, etc., é recente. Antes do século XIX, empregava-se a expressão “ciências morais”. O termo “morais” acentuava o caráter distinto do espírito humano em relação à ordem da natureza e insistia na dignidade superior do homem face aos objetos da natureza. Hegel, porém, preferiu usar a expressão  “ciências do espírito”. Se comparada às ciências exatas, as ciências humanas têm uma feição particular. Embora as duas tenham natureza interpretativa, não se pode negar que é mais fácil interpretar um objeto no laboratório do que um objeto conexo as tramas da vida social: o ser humano.

Neste artigo, coloca-se diante de três aspectos fundamentais das ciências humanas: o paradigma, a análise estrutural e a especificidade. Este conhecimento é fundamental à sua formação porque lhe capacita a compreender o que é e o que não é próprio de sua área de conhecimento. Este dado permite que se faça a distinção entre o que é próprio a cada ciência que você escolheu e, por isso, ele dá a firmeza necessária e indispensável para se entrar no universo acadêmico com confiança. Além disso, é crucial para que profissionais das diversas ciências da Faculdade Batista de Minas Gerais adquiram uma inteligência dialógica inter e transdisciplinar  nos respectivos objetos de pesquisa.

2.      Paradigma

O termo paradigma deve ser compreendido como “ [...] a transformação estrutural ocorre na própria configuração da compreensão, geralmente, devido às viradas epocais que propiciam o nascimento de um novo tempo-eixo, caracterizado pela ruptura com a visão de mundo vigente, mas que lhe é devedora” (SILVA, 2013, p. 18). Nesse sentido, visada científica inaugurou uma nova maneira de se compreender a natureza. Se na visada pré-moderna, isto é, antes do advento da ciência, os fenômenos eram explicados recorrendo-se as divindades; após a virada moderna, eles passaram ser explicados pelas leis intrínsecas de funcionamento. De modo ainda mais específico, o termo paradigma designa os aspectos característicos do conhecimento científico, quais sejam: objeto, imparcialidade, generalidade, necessidade e métodos. A precisão conceitual exige que cada elemento seja examinado de per si.

2.1 O objeto

Um conhecimento científico precisa ter bem definido o seu objeto de estudo. A definição clara do objeto é condição sine qua non - indispensável - à investigação científica e à produção do conhecimento fundamentado. Nesse sentido, pode-se falar dos psicológicos na Psicologia; de fatos históricos na História; de fatos sociais na Sociologia; de fatos econômicos na Economia, etc. Mas, qual é o objeto da Teologia? Ela é ciência? Sabe-se que o tempo da se ver a teologia como a referência de saber que paira sobre as ciências em geral não existe mais. Por isso, como “ciência da fé” ela não pode mais se contentar em justificar e explicar os enunciados tradicionais da fé. Através de um retorno constante às fontes bíblicas, ela deve entregar-se a uma leitura hermenêutica da fé e à retomada criativa da mensagem cristã em função das interrogações do pensamento contemporâneo. Deus é o seu objeto apenas como inciativa d’Ele mesmo, isto é, no registro de sua autocomunicação nas Escrituras e na história da Igreja Cristã (SILVA, 2012, 14). Isto ajuda no diálogo entre a teologia e as ciências em geral.

A convergência entre teologia e as ciências está no objetivo de inteligibilidade dos saberes, porque enquanto os dogmas religiosos sintetizam conclusões decorrentes das verdades religiosas da humanidade, as teorias científicas sintetizam os resultados das experiências sensíveis em situações controladas. A epistemologia da ciência e da teologia são distintas, porém, uma sociologia do conhecimento, nascida da dinâmica da história e da cultura, pode tanto criticar como iluminar os esforços de ambas. Nesta perspectiva, os dois saberes não são contraditórios, mas complementares. Isto significa que a teologia deve levar em conta as descobertas da ciência e a ciência deve considerar o que a teologia diz sobre a relação das descobertas científicas com as experiências religiosas. Para isso, é preciso deixar para trás as hostilidades mútuas que geralmente ocorriam pela invasão dos limites de cada ciência, como aconteceu com o evolucionismo darwiniano quando defensores intransigentes da literalidade dos primeiros capítulos de Gênesis acabaram por criar enormes dificuldades para a relação entre teologia e ciência. Recorre-se a Christopher Mooney:

Poucas vezes se reconheceu que o corretivo da teoria de Darwin para o relato

bíblico da criação resultou muito saudável para a religião, porque permitiu que os primeiros capítulos de Gênesis exercessem a função para a qual foram escritos: testemunhar a bondade da criação, da obra de um Deus livre  e transcendente e da dependência e do afastamento do homem em relação a Deus, fonte da vida (1993, p.316)

O perigo desta mútua fecundação é superado se ambos os saberes conservarem a alteridade própria de sua perspectiva da realidade que investigam. Os teólogos devem buscar na ciência enfoques mais profundos para os seus ensinos, enquanto que os cientistas devem acrescentar às suas pesquisas uma visão mais abrangente e integrada. A religião não ameaça a integridade da ciência se se orientar pelo realismo crítico. Isto só ocorre no realismo ingênuo. Werner Heisenberg disse:

Ainda estou convencido de que a verdade científica é inexpugnável no seu campo, jamais achei possível descartar o conteúdo do pensamento religioso [...] ao longo de minha vida me senti repetidamente movido a considerar as relações entre estes dois âmbitos do pensamento (apud MOONEY, 1993, 317)

2.2    A imparcialidade

A imparcialidade também é uma exigência fundamental à produção do conhecimento científico porque este esforço alivia a mente das pressões emocionais que obscurecem a capacidade de racionar. Além disso, ser imparcial é exercer contínuo policiamento sobre si mesmo desde o início da pesquisa até à construção do texto. Isto implica frear as tendências pessoais, as opiniões sem fundamento, as tendências ideológicas e as expressões valorativas. Estas coisas falseiam os resultados da pesquisa porque reproduzem, às vezes inconscientemente, as incontinências do pesquisador.

A busca pela imparcialidade é necessária, mas deve ficar claro que ela não se confunde com neutralidade. Heidegger mostrou que a neutralidade é impossível porque o ser humano é antes de qualquer ser de compreensão. Por isso, a compreensão não algo que ele usa quando quer, mas o sentido já lhe está dado antes mesmo que ele use a razão (HEIDDEGER, 2002). Noutras palavras, ao homem não é possível fazer ciência sem certa implicação porque ele não consegue se abstrair por completo dos elementos culturais e políticos que atuam sobre produção de conhecimento. Neste sentido, toda descoberta ou interpretação de um dado é uma tomada de posição. Por isso mesmo, os fatos humanos são reais, mas susceptíveis a várias interpretações.

2.3    Generalização

A generalização das leis e teorias da pesquisa ocorre pela aplicação do raciocínio indutivo. O conhecimento científico precisa ir além das experiências particulares. É neste ponto que aparece a intuição do pesquisador e o ultrapassamento do raciocínio exclusivamente dedutivo, isto é, que se move do geral para o particular. O raciocínio indutivo não nega o raciocínio dedutivo, mas o seu uso implica uma operação mais complexa do que a dedutiva porque é mais difícil generalizar a partir de uma situação particular. Entretanto, este é o desafio da produção científica inovadora.

A pesquisa feita segundo a lógica dedutiva tende a ser reprodutiva; a pesquisa feita à luz da lógica indutiva é original. Os estudantes da Faculdade Batista de Minas Gerais podem usar os dois métodos. Aqueles que estão começando o trabalho de pesquisa devem começar pelo método dedutivo, mas gradativamente devem avançar para o método indutivo porque é exatamente aí que o estudante marca sua presença na academia e no mundo. Porém, deve-se esclarecer que a generalização nas ciências humanas, por ser muito difícil de ser estabelecida, deve ser feita com muito cuidado.

2.4    Necessidade

A necessidade é aquele aspecto da teoria científica que sustenta que sob as mesmas condições, os resultados encontrados na experimentação são de natureza universal porque ocorrerão invariavelmente em qualquer lugar. Este elemento é fundamental porque é sobre ele que se assenta a possibilidade de generalização das leis descobertas na pesquisa. Não se podem generalizar fenômenos específicos e únicos porque hoje eles ocorrem de um jeito e amanhã ocorrerão de outro. Por isso, o pesquisador deve encontrar no seu objeto aquele elemento que lhe é próprio, mas que também está em todos os fenômenos similares que ocorram em qualquer lugar, desde que sob as mesmas condições experimentais. Este elemento pode ser mais facilmente detectado nas ciências exatas. Nas ciências humanas é mais difícil encontrá-lo, mas é imprescindível porque a generalização só pode ser feita se o pesquisador está apoiado na necessidade.

2.5    Métodos

Os métodos chamam a atenção do pesquisador para abordar cada objeto de modo específico à natureza da ciência ao qual ele pertence. Além disso, deve-se estar atento ao fato de que, mesmo no interior da mesma ciência, determinada pesquisa terá um método distinto de outra. Isto ocorre porque o método não pode ser imposto ao objeto, mas o pesquisador define o método a partir do objeto. O exame do objeto nas ciências humanas é possível em razão das estruturas existentes.

3.      Análise estrutural

O Estruturalismo é o modelo de compreensão que sustenta que o individualismo humano é pré-formado por estruturas. Entende-se por estrutura uma ordem oculta que fornece a chave de sua compreensão. Isto significa que o ser humano é entrecortado por uma série de determinações, tais como o parentesco, as regras sociais, a linguagem, o inconsciente, os sistemas econômicos, etc. Sem negar a autodeterminação humana, pode-se que o Estruturalismo ajuda a pôr um fio condutor para as ciências humanas.

3.1  Antropologia estrutural

Claude Lévi-Strauss, na Anthropologie structurale – “Antropologia Estrutural”, afirma que o princípio de proibição do incesto é a chave da organização social. Por esta via se estabelece a passagem do estado de natureza à cultura. Se se concentra apenas na aparência, pode-se pensar que as pessoas são livres para agir como lhes parecer, mas se se está de posse da chave estrutural, então as estruturas invisíveis se mostram com a sua força.

3.2  Marxismo

Na economia, considerada sob a ótica marxiana, as infraestruturas decorrem de superestruturas. O que dá o equilíbrio econômico de uma dada sociedade procede de modos específicos produção, circulação e de distribuição dos bens materiais. A macroestrutura acaba por determinar aquilo que o comércio reflete. O marxismo pretende trazer à luz do dia a estrutura oculta do capitalismo, exibindo as relações de classe nas relações de produção. Aqui também se poderia acreditar que a vida social e as condições econômicas das pessoas decorrem exclusivamente de seus esforços, mas na verdade é o sistema que decide. Isso que o marxismo evidencia, é a presença subjacente da estrutura econômica, que é quem rege de fato o comércio. Nesse sentido, o marxismo mostra que as ideias são apenas a superestrutura de  um sistema, um produto cuja base é econômica. Consciência é neste caso apenas a consciência de uma classe social. É ideologia porque escamoteia o verdadeiro sentido das coisas.

3.3  Psicanálise

Os resultados teóricos da psicanálise podem também ser interpretados através da noção de estrutura. O inconsciente é uma ordem escondida que rege o psiquismo individual. Ele carrega um sistema de representação reprimido que age sobre a vida consciente, mas se exprime apenas indiretamente. Freud mostrou primeiro que o inconsciente era uma estrutura essencialmente pessoal, ligada à história pessoal de  cada um. Porém, na segunda tópica, insiste  sobre um inconsciente primitivo, o Id.

3.4  Linguística

A linguística também passou pela viragem estruturalista. A linguística estrutural fundada por Jakobson insiste sobre a determinação que a linguagem exerce como sistema no qual se forma o pensamento individual. A linguagem torna-se então como o inconsciente ou o sistema econômico. De fato, uma entidade. Nesse sentido, pode-se dizer que o homem não fala uma língua, mas é falado por ela. Isto é assim porque a língua dá as formas de pensamento que não saberia se definir fora da linguagem. O sujeito consciente e racional não pode se colocar fora da linguagem que lhe prescreve suas próprias normas.

3.5  Estrutura transcendente do ser humano

A estrutura transcendente do ser humano existe antes que ele aparecesse no mundo e existirá depois que o mundo acabar. Ela determina seu mundo de representação e seu comportamento. Por isso, o ser humano jamais é livre em relação às estruturas. Ele é um sujeito, mas cuja individualidade é composta. O estruturalismo não suprime a noção de sujeito, mas é contesta a sua existência fora de um contexto de interconexões.

Os elementos estruturais permitem fazer ciência no âmbito das ciências humanas porque essas estruturas de fundo vistas na antropologia estrutural, no marxismo, na psicanálise, na linguística e na estrutura transcendente do ser humano ajudam a generalizar os conhecimentos porque dão as bases do que é comum e necessário.

4      CONCLUSÃO

A pesquisa nas ciências humanas exige uma compreensão que vai além das evidências imediatas dos sentidos. Nisto ela difere das ciências exatas cuja concentração é mais da ordem imediata. Quem faz ciência humanas precisa compreender o desafio de seu curso e refinar a cada semestre o seu olhar para que consiga ver além das aparências as estruturas que definem o humano e permite que se estude o ser humano com as prerrogativas científicas própria das ciências exatas.

REFERÊNCIAS

KHUN, Thomas. The structure of scientific revolutions. 2a ed., Chicago: The University of Chicago Press, 1970.

CARFANTAN, Serge. Le statut des sciences humaines, 2002. Disponível em: <http://sergecar.perso.neuf.fr/cours/schuma1.htm>. Acesso em: 05/07/2013.

GEFFRÉ, Claude. Dieu- l‘affirmation de Dieu.In: Encyclopedia Universalisen ligne. Paris: 2011. Disponível em:

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HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 11ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

SILVA, Juscelino. A justiça na cidade: Uma interlocução entre a noção aristotélica de justiça no Livro V da “Ética Nicomaqueia” e o Direito antigo e contemporâneo: um olhar sobre a cidade de Atenas e de Belo Horizonte, 2013. 278f. Tese (Doutorado)- Faculdade de Direito, PUC Minas, Belo Horizonte, 2013.

SILVA, Juscelino. Experiência e nomeação de Deus na Teologia de Claude Geffré. A Dialética do Cristo ontem, hoje e amanhã, 2012. 269f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Teologia, FAJE, Belo Horizonte, 2012.

Data da conclusão/última revisão: 3/4/2019

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Carolline Leal Ribas; Juscelino Silva

Caroline Leal Riba: Doutoranda em Humanidades, Mestre em Estudos culturais e especialista em gestão pública e em direito público.

Juscelino Silva: Doutor em Direito Professor de Graduação em Direito da Rede Batista.

Inserido em 04/04/2019

Parte integrante da Edição no 1610

Código da publicação: 4913

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Citação deste artigo, segundo as normas da ABNT:

RIBAS, Carolline Leal; SILVA, Juscelino. As ciências humanas: paradigma e análise estruturalBoletim Jurídico, Uberaba/MG, a. 13, no 1610. Disponível em: <https://www.boletimjuridico.com.br/ doutrina/artigo/4913/as-ciencias-humanas-paradigma-analise-estrutural> Acesso em: 23  jul. 2019.

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