Existem inúmeras relações teóricas interdisciplinares entre ecologia, história e geografia na perspectiva didático-pedagógica do turismo, dentre as quais, a percepção. A percepção do lugar é atualmente uma das diferentes formas pedagógicas de visualizar e analisar as materializações dos conflitos entre o homem e a natureza. Estudos recentes da percepção humana têm elucidado concepções teóricas e aspectos epistemológicos no tocante ao universo de signos, significados, significantes existentes na relação de identidade e pertencimento ao lugar. Destacam-se as contribuições científicas da Filosofia e da Psicologia Social para ampliar a compreensão dos processos fisiológicos e existenciais que permeiam o campo da percepção. Neste contexto, na compreensão da totalidade do lugar existem inúmeras relações filosóficas e psicológicas, entre às áreas da ecologia, geografia e história, indispensáveis às concepções pessoais e coletivas de espacialidade, percepção e temporalidade. Na Mesorregião Metropolitana de Belo Horizonte, alguns estudos de caracterização geográfica e contextualização histórica apontam para uma possível ampliação das atuais fronteiras do Quadrilátero Ferrífero, ameaçando a integridade de novas paisagens urbanas e rurais. 

O território geomorfológico do Quadrilátero Ferrífero, sempre se destacou como referência econômica no espaço, tempo e memória do estado de Minas Gerais em decorrência das atividades de mineração e siderurgia. Por outro lado, as fronteiras atuais do Quadrilátero Ferrífero apresentaram significativo impacto ambiental sobre seus aspectos abióticos: geologia, geomorfologia, recursos hídricos e clima; bióticos: fauna e flora; e antrópicos: história, patrimônio, paisagens culturais. É indispensável, portanto que o território do Quadrilátero Ferrífero seja repensado e reconfigurado na perspectiva teórica da ecologia, da geografia e da história compreendendo-o como um todo sistêmico, integrado e interdisciplinar, e entendendo-o como um conjunto único de mosaicos: um mosaico de paisagens de biodiversidade e endemismo; um mosaico de paisagens geopolíticas; um mosaico de memória e oralidade. Somente desta forma serão vencidas perspectivas insustentáveis que ameaçam sua diversidade ambiental e humana.

Ameaças surgem por todos os lados do Quadrilátero Ferrífero criando novas fronteiras: há um vetor de expansão no sentido leste consolidado pelo polo siderúrgico/minerário de Itabira/Ipatinga, outro vetor de expansão no norte através do polo siderúrgico/minerário de Itapanhoacanga/Serro, o vetor de expansão no sentido oeste pelo caracterizado polo siderúrgico/minerário de Igarapé/Itaúna e o mais recente vetor, cuja diretriz de expansão aponta para o sul para o futuro polo siderúrgico/minerário de Congonhas/Jeceaba. Caso estes pólos industriais capitalistas se efetivem, a compressão urbana e seus múltiplos impactos se desdobrarão sobre áreas rurais e remanescentes naturais. Estudos recentes estão sendo direcionados à compreensão dos impactos socioambientais da mineração e siderurgia nos municípios do Plano de Desenvolvimento Regional de Alto Paraopeba (Conselheiro Lafaiete, Congonhas, Ouro Branco, Belo Vale, Entre Rios de Minas, Jeceaba e São Brás do Suaçuí). Esta região geográfica do Alto Paraopeba, e municípios adjacentes compõem à “nova área” que por sua vez, contempla uma “ampliação” ideológica e mercadológica das fronteiras socioeconômicas do Quadrilátero Ferrífero para os quais se não for pensada alternativas de desenvolvimento, inúmeros lugares e paisagens estarão condenados a inúmeros impactos e ao consequente topocídio.

Esta realidade traz à tona a importância da preservação das paisagens do Quadrilátero Ferrífero protegendo eventuais elos e elementos de ecologia, cultura, sociedade e identidade presentes em sua diversidade de paisagens naturais e culturais. Neste contexto, a geografia, a história e a ecologia podem contribuir para minimizar ou anular eventuais impactos ambientais decorrentes de ações siderúrgicas e minerárias. Faz-se necessário então visualizar este território como um recurso turístico, dimensionado suas potencialidades e suas alternativas para a atividade turística: patrimônio cultural, turismo rural e ecoturismo. Desta forma, novas perspectivas de desenvolvimento sustentável através do turismo trarão novas dimensões e valores ao Quadrilátero Ferrífero. Além do turismo, faz-se necessária a criação de um corredor ecológico e cultural, bem como o estabelecimento de uma rede para o desenvolvimento de projetos ambientais, culturais, econômicos, educacionais, políticos, sociais e turísticos

Quando nos referimos às perspectivas insustentáveis do polo de Congonhas/Jeceaba, prevemos possíveis impactos sobre os patrimônios cultural e natural dos municípios adjacentes, dentre os quais, Desterro de Entre Rios, sendo indispensável uma ação e planejamento ambiental que preservem a paisagem, a cultura e a natureza, três elementos primordiais para a construção de um projeto de turismo sustentável. Desterro de Entre Rios, por sua vez, integra o Circuito Turístico do Campo das Vertentes, apresentando grande vocação para a ruralidade, a ecologia, a aventura e o lazer. Antigo distrito de Capela Nova do Desterro, ligado à Comarca do Rio das Mortes, apresenta perspectivas de turismo cultural e ambiental, sendo necessário um inventário turístico socioambiental, sociocultural, socioeconômico, socioeducacional, e sociopolítico com fechamento de dados preliminares e encaminhamentos ao poder público municipal. Este mesmo procedimento é aconselhável aos demais municípios ameaçados permitindo que a perspectiva teórica interdisciplinar da geografia, da história e da ecologia ampliem os limites e fronteiras do Quadrilátero Ferrífero pautados na valorização da cultura, da identidade e da territorialidade locais. Somente relações harmônicas entre espaço, identidade, tempo e memória ajudarão na percepção do lugar, elencando-o como potencial local na construção de uma possível sustentabilidade.

Recomenda-se, ainda, a leitura dos textos seguintes:

1)      http://web.cedeplar.ufmg.br/cedeplar/seminarios/ecn/ecn-mineira/2012/arquivos/desenvolvimento%20regional%20no%20alto%20paraopeba.pdf

2)      http://www.almg.gov.br/opencms/export/sites/default/acompanhe/eventos/hotsites/2010/debate_paraopeba/docs/ricardo_ruiz.pdf

3)      https://www.ufmg.br/boletim/bol1701/4.shtml

Data da conclusão/última revisão: 9/3/2018

 

Como citar o texto:

ANDRADE, Vagner Luciano de..O quadrilátero ferrífero e o insustentável futuro do Alto Paraopeba. Boletim Jurídico, Uberaba/MG, a. 29, nº 1515. Disponível em https://www.boletimjuridico.com.br/artigos/direito-ambiental/3961/o-quadrilatero-ferrifero-insustentavel-futuro-alto-paraopeba. Acesso em 19 mar. 2018.