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Portal Boletim Jurídico - ISSN 1807-9008 - Brasil, 22 de novembro de 2019

Bazófia moral

 

Atahualpa Fernandez

 

“Muchísimos vamos por la vida dando por supuesto que en lo esencial tenemos razón, siempre y acerca de todo: de nuestras convicciones políticas e intelectuales, de nuestras creencias religiosas y morales, de nuestra valoración de los demás, de nuestros recuerdos, de nuestra manera de entender lo que pasa. Si nos paramos a pensarlo, cualquiera diría que nuestra situación habitual es la de dar por sentado de manera inconsciente que estamos muy cerca de la omnisciencia.” Kathryn Schulz

Por acaso já existiu alguma época ou lugar nos que não se tenha investido uma desmedida quantidade de recursos, tempo e sacrifício pessoal para julgar a conduta dos demais? Que levante a mão aquele que ainda se surpreende com a excessiva facilidade e rapidez com que “los seres humanos nos juzgamos los unos a los otros”. Ninguém? Comecemos por isto. 

Entre os recursos com que contam os seres humanos para justificar suas ínfulas de superioridade hierárquica no mundo animal se acha o juízo moral; e seguramente seja o mais socorrido e evocado de todos. Nossa capacidade de discriminar é um traço perceptual e cognitivo evolucionado. Julgar é uma característica central de nossa capacidade para discernir entre amigos e inimigos, potenciais relações morais e imorais, futuros cônjuges confiáveis ou não confiáveis, e um longo etcétera. Navegar através das complexidades da vida diária é julgar inumeráveis estímulos, objetos, ideias, crenças, valores e, fundamentalmente, pessoas. (G. Saad)

Lamentavelmente, como sucede amiúde com a linguagem, uma palavra pode ter dois significados, um dos quais é positivo e o outro negativo. No caso de "julgar", o termo se associa em grande medida com suas implicações negativas, enquanto que seu outro significado, mais neutro, em grande parte se borrou de nosso léxico coletivo. Admito que, em alguns casos, julgar é errar (sacamos conclusões errôneas sobre o mundo e a gente porque julgamos a partir do que vemos, não do que não vemos); em outros casos, a suspensão do juízo está mal quando não é diretamente imoral (sempre e quando se faça baseado em uma nutrida quantidade de elementos de juízo, sensatez e a melhor evidência disponível).

Também reconheço que muitas pessoas são radicalmente contrárias a compartir uma opinião, tomar uma postura ou cometer o mortal faux-pas de emitir um juízo: “Deus não o queira!”. A negativa a julgar os demais e a capacidade de evadi-lo «ad absurdum et ad nauseam» se considera admirável, já que demonstra que se trata de uma pessoa pouco dada a satisfazer seu apetite de cuidar da vida dos demais recorrendo à ética (melhor dito, de “construir a própria bondade com a maldade alheia”). Julgar é equiparado com a estreiteza de miras e com a arrogância de não tolerar ou de não ponderar as distintas imperfeições da vida (por mais que este último seja o que de verdade nos faz seres morais).

Por desgraça para “os que não julgam” (exempli gratia Mateus 7:1-5) a ausência de juízos não é possível; tudo o mais que se pode conseguir é privilegiar a uns juízos frente a outros. Emitir juízos é uma característica integral do que nos faz humanos. Criamos nossa identidade ao fazer juízos de valor. Todos julgamos, todo o tempo. Sempre estamos tratando às pessoas de maneira que julgamos apropriadas para elas tal como nós as vemos, porque cremos firmemente conhecer os fatos, pensamentos e sentimentos relativos a ditas pessoas. O cérebro quer julgar. Quer criar mundos com o que sabe e o que não sabe, com o que imagina e recorda, com o que prediz e deseja. Evolucionou (o cérebro) para fazer juízos de valor e se o indulgente leitor (a) tem um problema com isso vive equivocado e/ou autoenganando-se. Somos uma espécie que em cada momento de vigília — e inclusive em sonhos — luta para dirigir o fluxo de sensação, emoção e cognição a estados de consciência que valoramos como bom ou mau (S. Harris), uma espécie desenhada (ou condenada) a etiquetar e julgar moralmente a conduta de nossos congêneres.[1]

A má notícia é que os sapiens são infinitamente mais complicados do que parece e os novos nichos virtuais apresentam oportunidades tão desconcertantes e novedosas para o juízo e o exibicionismo moral que de fato só começamos a compreender. Que dúvida cabe de que nos dias que correm somos cada vez mais exibicionistas e espectadores? Mostramos-nos para que nos mirem (evidentemente de forma seletiva) e, a sua vez, miramos aos demais. Gostamos de posar e manifestar nossas opiniões pessoais, ter uma audiência e vários amigos imaginários, expressar abertamente nossas preferências, idiossincrasias e obsessões, mostrar (sempre) a melhor versão de nós mesmos para que as pessoas nos vejam como nós nos vemos, criar testemunhas de nossa vida e que todo o mundo saiba (“quase”) tudo sobre o que fazemos, etc….etc.

Daí o enorme êxito das redes sociais (onde a incapacidade de refrear uma pessoa orgulhosa de sua estupidez sem atenuantes é mínima e a facilidade para propagar juízos e/ou ideias estúpidas e contagiantes é máxima[2]), esta espécie de vacina psicológica contra uma duvidosa ou empobrecida autoestima e um eficaz mecanismo não somente de controle da reputação (similar ao que se utilizava com o boca em boca e a fofoca nas sociedades de caçadores-coletores[3]), senão também para empurrar à pessoa a desenvolver «amizades indiscriminadas» e/ou a uma aceitação por um número cada vez maior de desconhecidos.[4]

E em nossa brumosa obscuridade mental, esta baixada aos infernos que às vezes propõe nossos neurônios e sinapses ávidos de ufania, estima e atenção social tampouco deixamos passar a ocasião de formular e vociferar enlouquecidos juízos morais sobre os demais (a expressão da indignação), como um intento desesperado de atuar ou falar de maneira dirigida a atrair a boa opinião da gente que observa, de fazer uma contribuição ao discurso moral público cujo objetivo é convencer aos demais de que somos “moralmente respeitáveis” (em inglês chamam  virtue signalling  à exibição de valores morais que permite melhorar o conceito que os demais têm de nós).

Quer dizer, usar o discurso moral para que os demais também façam certos juízos desejados acerca de nós como alguém que é digno de admiração por uma qualidade moral particular. Também a intenção pode ser outra: a de silenciar a um rival ou minar a credibilidade dos demais, mas sempre se apresentando o exibicionista moral como mais honrado moralmente e desvalorizando as contribuições dos demais porque provém de alguém moralmente ínfero. Fazer exibicionismo moral (moral grandstanding, como denominam Justin Tosi e Brandon Warmke[5]) intentando sacar benefício mediante a autoatribuição descarada de valores morais absolutos e axiomáticos é, em síntese, transformar nossa contribuição ao discurso moral em um projeto de vaidade (sem olvidar que a expressão da indignação moral muitas vezes tem suas satisfações: julgar ou criticar é entretido e a sensação de ser virtuoso resulta abertamente agradável). [6]

Em uma época em que a opinião está de moda, que os fatos já não importam, que se pode dizer qualquer coisa das que não temos nenhuma prova, que temos direito a tudo (menos a conformar-nos com qualquer coisa) e afetados por uma espécie de “platonismo incurável”, denunciamos aos “malfeitores” e aos “imorais” porque, ao refugiar-nos em nossa própria identidade (que consideramos incompreensível para os demais), cremos estar dotado de uma grande sensibilidade moral ou de um sentido profundo da justiça (quase sempre gerados pela distorção intrínseca de toda intervenção da mente humana que altera a percepção da realidade de maneira recorrente) que nos autoriza a inflar o peito para arrogar o direito a ir julgando e golpeando gente à tort et à travers com um só critério de valoração: o nosso. [7]

Como seres morais, nossa indignação é – pelo menos em um nível consciente – muito simples: “Ética es lo que les falta a los otros” (para utilizar a definição mais operativa de ética formulada por Fernando Savater). Logo, e dado que parece quase impossível evitar cair em um egotismo extremo quando pensamos em valores morais, está justificada - ainda que esta facilidade acarrete a intrigante possibilidade de que a gente possa expressar indignação moral inclusive sem senti-la, quer dizer, sem que experimentem realmente a indignação que seu juízo dispara para designar virtude ante os demais.

Mais em concreto, igual a um feitiço que congela o pensamento e desconecta a reflexão, abraçamos a fé de que desfrutamos de um superavit moral e, como  plasmação da verdade moral para sempre, carregados de valores definitivos e inquestionáveis, verbo moral que se faz carne em forma de guardião angelical da ética, engendramos nossos juízos com esta ideia na cabeça. De fato, o mundo está cheio de santos e puros sem pecha moral, a quem resulta muito, muito fácil, fixar-se em defeitos, reclamar superioridade moral por isso e encher páginas e páginas explicando como reivindicar um comportamento ético “para fazer deste mundo um mundo melhor” ou deduzir um código de conduta moral com a (imaculada) razão. E não creio que exagero se digo que vivemos uma autêntica pandemia de juízos, uma era de asfixiante indignação e de hipertrofia da moral.

Por que todo mundo parece sentir-se ofendido nestes tempos? Por que nos sentimos tão indignados, inclusive quando determinados atos e ofensas não nos afetam diretamente? Realmente é nosso desinteressado compromisso com a justiça, nossa devoção pela ética, nosso férreo compromisso com a sociedade e/ou nossa tenaz empatia e dedicação ao “próximo” o que estimula nossa sede de juízo e  indignação moral? Ou isso é o que queremos crer? Por que estamos todos tão honestamente enlouquecidos e tão moralmente agastados? Não resulta inquietante que os numerosos e arrogantes motivos que soem fazer com que algumas pessoas se sintam superiores moralmente aos demais as levem não somente a desvalorizar suas ideias e opiniões, senão que, ademais, amiúde convertem a essas pessoas em objeto de burlas? Não se trata simplesmente da necessidade (tão) humana de sinalar o bom que somos?

É bastante provável que as respostas a estas perguntas têm que ver em boa medida com a natureza humana, o substrato de todo humano que habita a terra, por muita variedade que se dê na superfície cultural. Um estudo publicado na revista Nature aporta provas de que as raízes de nossa indignação moral são, ao menos em parte, egoístas[8]. Segundo seus autores, a indignação moral é uma forma de propaganda pessoal, de anunciar ou publicitar a si mesmo: confiamos mais nas pessoas que dedicam tempo e esforço a criticar e condenar aos malfeitores, aos que se portam mal segundo nossas pautas morais e/ou os valores de nosso grupo[9], claro.

O artigo trata de resolver um problema evolucionista: como pode surgir uma conduta não egoísta como a indignação moral de um processo evolucionista “egoísta”? A resposta é que expressar um juízo de indignação moral beneficia ao que a manifesta, em longo prazo, porque melhora sua reputação. Os autores do artigo apresentam um modelo teórico que envolve os “sinais custosos” (costly signaling), cujo exemplo clássico é a cauda do pavão real. Somente os pavões reais machos saudáveis e com bons genes podem permitir-se ter essas caudas vistosas e extravagantes que funcionam como um anúncio de sua qualidade genética.

Da mesma maneira, exibir-se recriminando aos que se comportam mal (segundo nossos valores ou de nosso grupo) funciona como um sinal de integridade, de confiabilidade. E isto é assim porque censurar ou corrigir aos demais supõe um custo, mas esse custo se recupera se “a la larga los demás nos van a hacer favores o van a colaborar con nosotros al ver que somos personas moralmente respetables y de fiar”. Portanto, ao perceber que ser íntegro moralmente nos dá resultado, vamos estar mais dispostos a julgar, a reprochar e a condenar aos malfeitores, porque seremos recompensados por promover um comportamento moral. Isto explica, segundo os autores do estudo, o porquê de escolher exibir nossa desaprovação pelos maus pode funcionar como uma cauda de pavão: quem se dedica a reprovar e consertar uma má conduta provavelmente é digno, sério e (moralmente) decente.

Não sobra matizar aqui que estamos falando de causas últimas e de um processo evolucionista. Os autores não estão dizendo que conscientemente atuamos assim, isto é, que as pessoas que expressam ou exibem indignação estão deliberadamente tentando aparecer para os outros. É como praticar sexo: não o fazemos porque queiramos multiplicar nossos genes, senão porque nos satisfaz (já sabem: "la petite mort"); mas a explicação última é que praticar sexo serve para fazer cópias de nossos genes.[10]

Surpresos? Pois, a estas alturas e com tudo o que já sabemos sobre a natureza humana, não é para tanto: somos o que somos por nossa relação com outros. O «eu moral», algo que cremos muito íntimo e pessoal, “es en realidad un Caballo de Troya del grupo, un programa cargado en nuestro cerebro que en realidad no trabaja para nosotros, sino para los demás: nuestro yo trabaja para el otro, para asegurar que encajemos en el grupo (M. Lieberman). Como afirma David Eagleman: “Aunque solemos sentirnos seres independientes, nuestros cerebros están preactivados para la interacción social y una gran parte de los circuitos cerebrales tienen que ver con otros cerebros: la mitad de nosotros somos los demás”.

Esta «marca de qualidade» do ser humano já deveria ser suficiente para entender o muito que nos importa o que pensam os demais. A visão individualista, racional e separada da natureza humana é equivocada: somos criaturas profundamente sociais e tem toda a lógica do mundo que nos afete demasiado a opinião que os outros tenham ou o que pensam de nós (por isso há um tipo de informação que nos interessa sobre todas as demais: as informações sobre nós mesmos). Frente a nossos congêneres nos jogamos nossa reputação, nosso prestígio e, em definitiva, nosso status - nossos maiores e mais apreciados bens. Na verdade, nossa imagem e nosso sentimento de autovalia estão determinados pela maneira como os outros nos veem atuar e, inclusive, mais pelo que pensam e o que dizem de nós[11] - tampouco caberia esperar outra coisa de uma espécie que se move pelo mundo social julgando constantemente as intenções dos demais e cujo «ego» luta incessante e encarniçadamente por afirmar e defender sua existência, sua autoimagem, sua autoestima, sua honra e suas idiossincrasias. [12]

Desse modo, a teoria proposta pelos autores da referida investigação explicaria algumas coisas que estamos vendo amiúde, onde há casos absolutamente desproporcionados de linchamento moral a alguns indivíduos que eventualmente não estiveram muito acertados em algumas de suas decisões. De forma consciente ou não, as pessoas que se dedicam a julgar, censurar, denunciar ou depreciar sem moderação aos demais, o que estão fazendo não é realmente dizer o mau, imorais ou néscios que são esses indivíduos, senão o bom, o moral e ilustradas que são elas mesmas; quero dizer, que elas não são nem más, nem imorais, nem estúpidas e que jamais incorreriam nos mesmos equívocos.

Intentarei guiar suavemente e acomodar os neurônios do amável leitor (a) ao redor do que acabo de dizer dando um exemplo rápido para que não incorra em enganos: quando, sem sequer considerar o risco que implica especular sobre os motivos dos demais,  afirmo que um determinado indivíduo atua (ou atuou) como “se fora infalível”, um “santo”, um “juiz de um tribunal da Inquisição” ou como um tipo débil guiado pela força de uma dada situação que influi (ou influiu) em sua conduta, o que estou dizendo é que eu sou um ser humano virtuoso, justo, racional, humilde, cauto e firme, e que «nunca jamais» atuaria do mesmo modo nem me curvaria ante o poder das circunstâncias[13]. Convenhamos: bastante forte.

Com a mensagem de desacreditar aos que não estão de acordo com nossas crenças, valores e pensamentos como indivíduos imorais, malvados, idiotas ou ignorantes, chega também, em um sussurro, o anelo egoísta de incrementar, melhorar ou adornar nossa reputação moral individual. Perguntarei outra vez: Há outro modo mais sutil e eficaz de autopromoção (tão sutil que raramente nos damos conta do impacto que exerce sobre nosso pensamento)? Por acaso não aprendemos que para conservar intacta ou aumentar nossa autoestima às vezes é necessário sentir-nos superiores aos demais? Deveras podemos confiar que alguém fanático da moral crê que sua identidade tem que ver com um autoconhecimento total das razões pelas quais se sente virtuoso? É o convencimento de que quando os demais veem o bom que sou isso eleva meu status, glorifica meu prestígio, me converte em alguém exemplar, uma pessoa desejável para trabalhar e cooperar ou me elogiarão e farão favores em caso de necessidade; e também me faz atrativo como companheiro sexual[14]. «Vanitas vanitatum omnia vanitas».[15] 

Entendo que dar e receber razões são parte de nossa vida cotidiana, que consumimos razões e também as produzimos: para justificar nossa conduta, para julgar, criticar ou elogiar, para sopesar prós e contras de uma eleição, decisão ou ato. Também  compreendo o inútil que resulta pedir a nossas paixões que sejam sensatas e que a todos nos satisfaz ver-nos baixo uma luz favorecedora e positiva, que nos produz toneladas de prazer a sensação de que somos uns indivíduos excelentes e que julgar e condenar aos demais nos faz sentir-nos muito melhores por contraposição[16]. É um monstruoso deleite poder presumir com nossos comentários dos bons que somos diante dos demais. Mas há um limite! Há coisas em que se podem crer e outras que nem por assomo, já que o entusiasmo, a autoestima e/ou a honradez “no basta para tener la seguridad de que uno está en lo cierto”. (B. Russell)

Estou persuadido que todos compartimos a razoável opinião de que existe um grande perigo em todos os juízos e condenas morais que não se limitam somente às críticas baseadas em provas ou critérios objetivos, senão que em algumas ocasiões se traduzem em ações contra os demais, e que, às vezes, se demonstra que são (ou foram) injustas e precipitadas[17]. Sabemos muito menos do que cremos acerca do que impulsa as pessoas a tomar uma decisão ou a adotar uma conduta sobre outra. Os juízos e a ostentação moralista, o constante julgar e criticar aos demais, o santificar e pontificar sobre qualquer tema segundo nossos valores ou de nosso grupo pode arruinar a vida da gente sem mais referência que uma informação muito parcial (logo está a emoção humana da «Schadenfreude», que designa a dita ou a ledice que se sente pelo sofrimento ou desgraça alheia, e que “impregna toda nossa experiência, apesar de suas conotações vergonhosas” – R. H. Smith).

Ademais, ao excesso de crédito que outorgamos à nossa capacidade perceptiva, ética, intelectual e analítica para entender e explicar comportamentos complexos se soma nossa tendência a sobre-estimar nossas capacidades e subestimar as capacidades alheias. Pessoalmente, suspeito por princípio das divisões de pessoas em boas e más, porque a vida real é muito mais complexa e profunda que tudo isso, e com uma peculiaridade não menos aterradora: “el que quiere el «summum bonum», introduce también con esto el «summum malum»”. (P. Watzlawick)

Talvez o mais inteligente e sensato seja reconhecer que todos somos medíocres e limitados em quase tudo, que estamos prenhados de vieses cognitivos e prejuízos que são invisíveis para nós e que exigir o máximo moral dos demais é ridículo. Do contrário, corremos o risco de chegar a um nível de exigência moral e de virtude inalcançável para todo o mundo e/ou a um tipo de postura ou discurso moral cada vez mais cínico e vazio, lançando-nos a uma louca e interminável carreira de santidade e pureza, uma carreira em que ninguém quer ficar atrás e que lhe acusem de covarde, apático ou inferior desde o ponto de vista moral.

Por certo que a indignação moral é parte da natureza humana, mas é bom saber que a censura que dispara esta indignação se explica melhor não como uma reação proporcionada e justa, senão como o resultado de um sistema que vai mais além de nossas capacidades cognitivas e emocionais e que evolucionou para potenciar e engrandecer nossas reputações individuais, sem demasiado cuidado ao que isso supõe para os demais.

Assim, da próxima vez que o indulgente leitor (a) sinta a tentação de julgar ou indignar-se com alguém (e logo convencer a milhares de primatas para que o aceitem), recorde perguntar-se, independentemente do grupo a que pertence, se não está em realidade dizendo: “Mira que bom eu sou; mira que cauda mais bonita tenho!”. Pode, inclusive, que com essa sensata falta de impaciência obtenhas um elogio extra de alguns amigos adultos, sempre e quando faças o correto ao final. Teus filhos, por outro lado, sempre te julgarão com dureza.

 

[1] Parodiando a Pierre-Jean-George Cabanis (1802) podemos dizer que o cérebro humano produz juízos morais igual que “el hígado segrega bilis”.

[2] Recordemos a afirmação de Umberto Eco: "Las redes sociales les dan el derecho de hablar a legiones de idiotas que primero hablaban sólo en el bar después de un vaso de vino, sin dañar a la comunidad. Ellos eran silenciados rápidamente y ahora tienen el mismo derecho a hablar que un premio Nobel. Es la invasión de los necios."

[4] Segundo Molly Crockett, para quem as redes sociais são «estímulos supernormais» para a indignação moral e disparam uma indignação (moral) maior da que disparariam os estímulos da vida diária, a indignação moral é tão antiga como a civilização, mas os meios digitais, Internet e as redes sociais, cambiaram por completo sua expressão de três maneiras principais: a) exacerbam a expressão da indignação moral ao inflar os estímulos que a desencadeiam, b) reduzem os custos da expressão da indignação (moral), e c) amplificam enormemente os benefícios pessoais (no caso, o efeito sobre a reputação e a qualidade moral do sujeito). Nota bene: «Estímulo supernormal» é um conceito evolucionista muito potente que consiste em um estímulo artificial que exagera as características do estímulo natural fazendo-o irresistível e muito mais atrativo para o animal que o estímulo natural; por exemplo, um bolo coberto de chocolate é um «estímulo supernormal» que exagera os traços doces pelos que nos sentimos atraídos de forma natural, uns seios de silicone são um «estímulo supernormal» e o programa Big Brother é um «estímulo supernormal» que sacia nosso grande apetite pela informação social. Resumindo, os meios digitais transformam a indignação moral ao cambiar tanto a natureza como a prevalência dos estímulos que a disparam.

[6] Na verdade, se nos detemos atenta e cuidadosamente sobre as condições do impulso de exibir-se saltará à vista que o exibicionismo não é um fim em si mesmo, senão um dos meios possíveis na realização de um propósito indicativo de baixa autoestima e de narcisismo pessoal ligado ao egocentrismo. Para dizê-lo de alguma maneira menos rebuscada: é um enorme «sem-sentido» (salvo o «sentido pessoal» da estimação, compreensão, diferenciação e individualização do mundo que nos rodeia) e com invisíveis consequências práticas se não julgamos e recriminamos para demonstrar aos demais que sabemos mais que o «outro», que vemos mais longe, mais rápido, mais profundo, mais preciso, mais elaborado e que nossa inatacável virtude moral é mais poderosa que a do «outro». Do contrário, julgar seria como rezar pelos enfermos, isto é, um pouco como a masturbação: os que a praticam podem sentir-se bem,  “pero no hace nada por la persona en la que están pensando” (no caso, à pessoa a quem se está julgando).

[7] E não é isto tudo. Somos uma espécie com uma predisposição especial para moralizar a tudo e a todos. E com esse processo pelo qual qualquer coisa que previamente se considerava fora do campo moral entra dentro do mesmo (moralização) — quer dizer, no campo moral que tem que ver com o bem e o mal, com o que se deve e não se deve fazer, e que se impõe —, surge o que Tzvetan Todorov denominou de moralismo (a lição moral ditada aos outros, da qual quem dita a lição se sente orgulhoso); e com o moralismo, o moralista. Para Todorov, o indivíduo moralista “no pierde su tiempo en elogiar el bien, ni en los otros, ni siquiera en él mismo; el beneficio indirecto — que él extrae de su postura, la de denunciador del mal en general — le basta. Siempre ha sido así: aquel que delataba a la mujer adúltera para la venganza de los otros gozaba secretamente de su propia superioridad. El moralista se parece, entonces, a aquel a quien se llama algunas veces el fariseo, si se pone el acento menos en su ocasional hipocresía, o en su formalismo, que en su tendencia a juzgar a su prójimo con severidad. El moralista vive en la buena conciencia, está animado de lo que se llama en inglés self-righteousness; como complemento de ello, vigila meticulosamente las faltas de los otros. Un precepto para el próximo siglo podría ser: comenzar por combatir, no el mal (en los otros) en nombre del bien (que nosotros detentamos), sino la confianza de quienes pretenden saber siempre dónde se hallan el bien y el mal; no al diablo sino —en principio— a los maniqueos.  Lo contrario de un mal no es forzosamente un bien; puede ser otro mal.”

[8] Jordan, J. J. et al. Third-party punishment as a costly signal of trustworthiness, Nature, 530, 473–476, (25 February 2016), doi: 10.1038/nature16981. Um bom resumo do artigo realizado pelos próprios autores: https://www.nytimes.com/2016/02/28/opinion/sunday/whats-the-point-of-moral-outrage.html?_r=0

[9] “Tanto si pasamos mucho tiempo con esas personas porque estamos de acuerdo con ellas o si estamos de acuerdo con ellas porque pasamos mucho tiempo juntos, la cuestión fundamental sigue siendo la misma. No es solo que participemos de una creencia; es que participamos de una comunidad de creyentes.” Kathryn Schulz

[10] Desnecessário entrar em detalhe sobre o experimento realizado no estudo. Basicamente se dá dinheiro a uma pessoa que pode dedicá-lo a castigar aos que se portem mal, enquanto que outra pessoa observa sua conduta e decide se confiar nele ou não. O resultado é que efetivamente os que mais castigam são mais fiáveis e o observador faz bem em confiar neles. Nota bene: Em um interessante artigo, C. J. Clark, R. F. Baumeister e P. H. Ditto (Making punishment palatable: belief in free will alleviates punitive distress. Consciousness and cognition, 2017, 51:193-211) propõem que o livre-arbítrio serve para justificar os impulsos de castigar ao fazer aos que infringem as normas moralmente responsáveis, e assim justificar seu castigo sem sofrer o stress que fazer dano a um semelhante implica. Segundo os autores do artigo, há que fazer o castigo mais aceitável e que o livre-arbítrio serve precisamente para isso, para facilitar o castigo e para aliviar o mal-estar que produziria fazer dano a outro ser humano.

[11] Richard Feynman  escreveu um livro titulado  ¿Qué te importa lo que piensen los demás?, demonstrando assim que lhe importava tanto como para dedicar centos de páginas a intentar convencer aos demais de que não. Não podemos subtrair-nos às opiniões alheias (naquilo que dizia Austen de intentar condicionar a opinião que os demais tenham de nós) e menos ainda acerca de um tema tão transcendental como resulta ser “uno mismo”, e o curioso é que não importa que lugar se ocupe na hierarquia social, nem quanto poder se ostente, que essa dependência não diminui. De fato aumenta, multiplicando a necessidade de gastos suntuários que demonstrem essa posição, assim como a obsessão por autênticas banalidades. Não podemos evitá-lo, simplesmente.

[12] Seguramente o sofrido leitor (a), como ser humano que é, estará neste momento pensando que isto só ocorre com as outras pessoas. Uma ingenuidade sem paliativos. Basta com que seja humano, disponha de um equipo sensorial humano e tenha um cérebro humano para abandonar a cautela, buscar e encontrar padrões e narrações para interpretar a própria realidade, e sentir como irrefutavelmente reais as acolhedoras ficções e veleidades que se inventa. É natural nossa tendência a negar a relevância dos fatos, a rechaçar instintivamente as debilidades que nos caracterizam, a criar “pontos cegos” mentais no que à verdade se refere, e um longo etcétera. Nisso somos únicos: “la sensación de centralidad, sentirse epicentro del mundo y de las cosas, tomarse a sí mismo como unidad de medida y como promedio, como referencia y como verdad”. (E. Bruner)

[13] É deveras sabido que não julgamos igual os atos dos demais e os próprios, que vemos muito bem “a palha no olho alheio, mas não a viga no próprio”. Não somente tendemos a pensar que temos (e atuamos com) razão e que os que atuam motivados por interesses são os outros, senão que  sofremos de uma grande quantidade de vieses cognitivos que distorcem nossa visão do mundo e de nós mesmos. Somos vítimas de nosso delicado e “sobre-excitado” ego, cegos aos nossos próprios equívocos, tendenciosos em nossas avaliações, e muitas vezes não serve de nada que nos expliquem, porque seguiremos pensando o mesmo. Ademais, está o que se conhece como «erro fundamental de atribuição»: uma assimetria - demasiado recorrente em relações humanas - na atribuição da causa quando estamos considerando a conduta alheia em oposição à nossa própria. A ideia fundamental é que, ao intentar compreender o comportamento dos demais, as pessoas tendem a atribuir à conduta observada uns fatores de personalidade, em contradição às características das situações. Ao fim e ao cabo, é fácil explicar o comportamento dos demais em termos de personalidade (tanto no que se concerne aos traços relativos ao «caráter» como os vinculados com o «temperamento»), especialmente quando os conceitos e os correlatos de nossas «teorias da personalidade» intuitivas não estão bem definidos (por exemplo: «Sabia que faria isto porque é uma pessoa muito egoísta, um canalha empedernido»). Por outro lado, quando interpretamos nossas próprias ações, costumamos explicá-las desde uma perspectiva das circunstâncias em que nos encontramos (por exemplo: «Explodi porque me encontrava em uma situação insuportável e baixo muita pressão»). Somos sempre vítimas das circunstâncias; os demais, vítimas de uma personalidade viciada e/ou de um caráter débil ou deformado. A personalidade/caráter rege a conduta dos demais, mas a situação o faz com a nossa. Assim que ao tratar de compreender ou quando penso na atitude do outro percebo que sua personalidade destaca sobre um fundo de diferentes situações, isto é, não tenho nenhum problema para julgar que seu comportamento se baseia fundamentalmente em um determinado tipo de temperamento ou tendências que contribuem à incoerência das pautas de sua vida emocional, de seus pensamentos e de seus atos (como assinala Richard Alexander, ao estabelecer o conceito de «reciprocidade indireta», “se trata de un matiz importante de la psicología moral humana, a saber, que los seres humanos atribuimos con más facilidad la virtud a la persona y consideramos que la virtud es un atributo de la persona más que pensar que la virtud es un atributo de los actos o de las decisiones, es decir, que no tendemos a pensar que alguien puede ser bueno en una situación y malo en otra.”). Ao tratar de compreender ou explicar minhas próprias ações, no entanto, percebo os câmbios das circunstâncias destacados sobre o fundo estável e fiável de meu caráter, de meu «eu» (https://www.researchgate.net/publication/282869932_Sobre_o_mito_e_a_maldicao_do_Eu_Parte_1). Minha ablepsia unicamente se aplica a meus próprios motivos e atos, não aos dos demais. Em outras palavras, “não existe o bem e o mal, só meu bem e vosso mal” (L. Bruce): miramos em nosso interior e vemos objetividade, miramos em nosso coração e vemos bondade e honradez, miramos em nossa mente e vemos racionalidade, miramos a nossas crenças e desejos e vemos a realidade, miramos a nossas razões, motivos e preferências e vemos infalibilidade. Tendemos a confundir nossos modelos da realidade com a realidade mesma. Como vítimas inocentes dos estragos produzidos pelas circunstâncias, o nosso é o mundo ético, verdadeiro, evidente e normal (a despeito de todo e qualquer indício em contra); imoral, desquiciado, egoísta, falso, ilusório, excêntrico, profano, sacana, infiel, disparatado ou ao menos estúpido é o mundo dos demais. Para uma compreensão sobre a arte de equivocar-se e a dinâmica da conduta humana com relação ao alcance e os limites do poder pessoal, do poder situacional e do poder sistêmico: Philip Zimbardo, The Lucifer Effect; Kathryn Schulz, Being Wrong. Adventures in the margin of error.

[14] Geoffrey Miller (The Mating Mind: How Sexual Choice Shaped the Evolution of Human Nature), por exemplo, defende que as principais capacidades da mente humana que estão detrás da cultura, da moral, da linguagem, da música, da arte, da criatividade, do exibicionismo ideológico, etc...etc.,   evolucionaram tanto em homens como em mulheres por mútua seleção sexual. Nas palavras de Robert Ford (Westworld):“I read a theory once that the human intellect was like peacock feathers. Just an extravagant display intended to attract a mate. All of art, literature, a bit of Mozart, William Shakespeare, Michelangelo, and the Empire State Building just an elaborate mating ritual.”.

[15] Em um famoso estudo realizado por Erin E. Buckels e colaboradores, titulado Trolls just wanna have fun (2014), os investigadores concluíram que há uma relação entre a forma (e o conteúdo) de fazer comentários on-line e a personalidade do usuário. Segundo o informe, o comportamento “troll” tem três traços fundamentais, um conjunto que a psicologia batizou como  dark triad  (a tríada escura): narcisismo, psicopatia e maquiavelismo. Buckels e colaboradores confirmaram a aparição destes três e incluíram outro traço essencial: o sadismo. Denominaram dark tetrad (a tétrade escura). Há um gosto deliberado “hacia la agresión porque sí, gratuita y fácil”. Apetite pela crueldade, aponta o estudo. Este perfil é o que gera mais ruído em internet, e em sua maioria são os hombres os que mais tempo ao dia dedicam a comentar, opinar ou julgar.

[16] «De todo nos cansamos, menos de poner en ridículo a los demás y vanagloriarnos de sus defectos», escreveu William Hazlitt em um ensaio que publicou em 1826 (The Pleasure of Hating). 

[17] No que à opinião sobre os demais se refere, em muitíssimas ocasiões sim que há fumaça sem fogo. Daí a cautelosa advertência de Patrick Stokes: “Salvo que tengas argumentos y pruebas, no, no tienes derecho a una opinión”.

Data da conclusão/última revisão: 27/10/2017

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Atahualpa Fernandez

Membro do Ministério Público da União/MPU/MPT/Brasil (Fiscal/Public Prosecutor); Doctor (Ph.D.) Filosofía Jurídica, Moral y Política/ Universidad de Barcelona/España; Postdoctorado (Postdoctoral research) Teoría Social, Ética y Economia/ Universitat Pompeu Fabra/Barcelona/España; Mestre (LL.M.) Ciencias Jurídico-civilísticas/Universidade de Coimbra/Portugal; Postdoctorado (Postdoctoral research)/Center for Evolutionary Psychology da University of California/Santa Barbara/USA; Postdoctorado (Postdoctoral research)/ Faculty of Law/CAU- Christian-Albrechts-Universität zu Kiel/Schleswig-Holstein/Deutschland; Postdoctorado (Postdoctoral research) Neurociencia Cognitiva/ Universitat de les Illes Balears-UIB/España; Especialista Derecho Público/UFPa./Brasil; Profesor Colaborador Honorífico (Associate Professor) e Investigador da Universitat de les Illes Balears, Cognición y Evolución Humana / Laboratório de Sistemática Humana/ Evocog. Grupo de Cognición y Evolución humana/Unidad Asociada al IFISC (CSIC-UIB)/Instituto de Física Interdisciplinar y Sistemas Complejos/UIB/España.

Inserido em 18/12/2017

Parte integrante da Edição no 1492

Código da publicação: 4362

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Citação deste artigo, segundo as normas da ABNT:

FERNANDEZ, Atahualpa. Bazófia moralBoletim Jurídico, Uberaba/MG, a. 13, no 1492. Disponível em: <https://www.boletimjuridico.com.br/ doutrina/artigo/4362/bazofia-moral> Acesso em: 22  nov. 2019.

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